Morreu na última sexta-feira em sua casa, em Connecticut, aos 83 anos, o cineasta Robert Mulligan, indicado ao Oscar de 1963 pelo clássico O Sol é para Todos.
Conhecido por sua dedicada direção de atores, Mulligan dirigiu cinco atores e atrizes em performances lembradas com indicações da Academia: Gregory Peck e Mary Bedham em O Sol é para Todos, Natalie Wood em O Preço de um Prazer, Ruth Gordon em À Procura de um Destino e Ellen Burstyn em Tudo Bem no Ano que Vem.
O diretor e narrador de Houve uma Vez um Verão era formado em jornalismo e literatura, trabalhou no jornal The New York Times e dirigiu peças de teatro na Broadway. Na rede CBS, se tornou assistente de produção e ganhou a chance de dirigir a série Suspense, apresentada por Alfred Hitchcock. Depois de dirigir outras séries nos anos 50, então fez o caminho natural ao cinema em 1957, com Vencendo o Medo.
O último filme de Mulligan, falecido em decorrência de uma doença cardíaca, foi No Mundo da Lua, de 1991, com Reese Witherspoon.
RELEMBRO AGORA OS DOIS MAIS APLAUDIDOS FILMES DIRIGIDOS POR ROBERT MULLIGAN
"Houve Uma Vez Um Verão" é um clássico e inesquecível filme. Baseado no livro e no roteiro de Herman Raucher, considerados por muitos como autobiográficos, o filme conta, com extrema sensibilidade, o despertar de um jovem de 15 anos para o amor, durante suas férias numa pequena ilha da Nova Inglaterra no verão de 1942.
No verão de 1942, três amigos, Hermie, Oscy e Benjie, vão passar as férias com seus pais numa pequena ilha da Nova Inglaterra. Assim como qualquer adolescente na faixa dos 15 anos, os três estão começando a descobrir sua sexualidade. Mas cada um deles tem uma visão diferente sobre a tão aguardada primeira vez.
Para o valentão Oscy, o que importa é a quantidade de mulheres que vai conhecer e "agarrar" nessas férias, enquanto o tímido Benjie sua frio só ao pensar em se aproximar de uma garota. Já Hermie, demonstrando ser mais sério e maduro, deseja conhecer uma mulher especial e viver um grande amor.
No vilarejo em que se encontram, os jovens freqüentam a praia durante o dia e, à noite, vão ao cinema. Numa casa afastada, encontra-se Dorothy, uma jovem e bela mulher de vinte e poucos anos, recém-casada com um militar que aguarda, a qualquer instante, o momento de ter que partir para o front europeu da 2ª Guerra Mundial.
Embora seja bem mais moço, Hermie apaixona-se por ela e passa diariamente a observar de longe a casa em que o casal se encontra. Dias depois, ele assiste à partida do militar, aumentando seus desejos em relação à Dorothy.
Certo dia, ao vê-la atrapalhada com uma grande quantidade de pacotes, oferece-se para ajudá-la a carregá-los. Ao chegar à sua casa, Dorothy tenta recompensá-lo oferecendo-lhe uma gorjeta, mas ele aceita apenas uma xícara de café. Dias depois, ela o encontra no vilarejo e lhe pergunta se ele poderá ajudá-la a colocar uns caixotes no sótão, no que é por ele atendida. Mais uma vez, ela lhe oferece um pagamento pela ajuda, mas ele se nega a aceitá-lo, alegando que gosta dela. Dorothy começa, assim, a sentir uma afeição especial por aquele garoto.
A partir daí, Hermie não mais consegue tirá-la do pensamento, muito embora, em nenhum instante, tente forçar uma relação mais próxima, até pelo fato de não ter tido nenhuma experiência sexual anterior com uma mulher.
Certo dia, ao bater à porta dela, ele ouve o som de uma vitrola, mas ninguém o atende. Como a porta não se acha trancada, ele entra na sala de estar, que se encontra vazia, desliga a vitrola, e sobre uma pequena mesa, encontra uma garrafa de whisky vazia e um telegrama informando que o marido de Dorothy fora morto em combate na França.
Logo depois, ela chega à sala, religa a vitrola e, sem dizer uma única palavra, como se achasse em estado de choque, abraça-o. Ambos com os olhos cheios de lágrimas, começam a dançar lentamente em silêncio. Talvez buscando no jovem adolescente, o amor ausente do marido, ela o leva até o quarto, onde finalmente Hermie tem sua tão esperada primeira vez. Ao final, ela se levanta em silêncio, acende um cigarro e vai sozinha até a varanda. O jovem deixa o local.
No dia seguinte, ele retorna à casa de Dorothy, encontrando apenas um bilhete a ele endereçado, no qual ele lê: "Não tentarei explicar o que aconteceu ontem à noite, pois sei que, com o tempo, encontrará a melhor forma para se recordar daquele momento. Eu me lembrarei de você e rezarei para que seja poupado de tragédias. Desejo-lhe apenas coisas boas. Para sempre, Dorothy".
Hermie nunca mais voltou s encontrá-la.
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O sol é para todos
(To kill a mockingbird)
“To kill a mockingbird” é um clássico. A história em que se baseia, escrita por Harper Lee, recebeu o prêmio Pulitzer em 1961. Gregory Peck, extremamente elegante no papel do advogado Atticus Finch, foi premiado com o Oscar de melhor ator. O filme – disponível em VHS e DVD - merece ser visto ou revisto sob o olhar da atualidade.
Entrelaçam-se na trama, de forma simples e frontal, argumentos que destacam diferentes formas de exclusão social: etnia excluída, deficiente mental socialmente repudiado e pessoas economicamente menos favorecidas. Paira no ar a mensagem de que a discriminação e a exclusão estão a um passo da perseguição penal e que, no final das contas, é inevitável que os conflitos sociais acabem por desaguar na justiça penal.
Durante a depressão, ao Sul dos Estados Unidos, numa pequena cidade, onde nascer branco era preciosa vantagem, um negro, Tom Robinson, é acusado injustamente de ter estuprado uma mulher branca. Atticus Finch é encarregado de defender esse homem perante o júri. E o defende porque defender é seu trabalho, independentemente de quem seja o acusado.
O advogado enfrenta não só o processo, mas também medos, preconceito e violência que, revelados na intimidade da insossa população, põem à prova suas inabaláveis convicções e toda a sistemática do julgamento popular (procedimento do Grand Jury). A certo ponto do filme, o pai da vítima grita ao advogado: “ - Eu sinto muito que você tenha que defender esse negro que estuprou Mayella. Eu não sei porque não o matei eu mesmo, ao invés de procurar o sheriff. Teria poupado a você, ao sheriff e aos contribuintes muitos problemas...”
Momento especial do filme é a cena em que o advogado, prevendo a hipótese de linchamento, protege o acusado solitariamente, fazendo guarda à porta da cadeia.
O melhor do filme é ter a oportunidade de acompanhar de perto conflitos e problemas que integram a rotina do advogado criminal e que ultrapassam, em muito, o âmbito profissional. A advocacia criminal é descrita como tarefa árdua e ingrata, que se diferencia das demais profissões que rondam o direito. É especialidade que exige do profissional enorme esforço e tenacidade porque enfrenta, na defesa daqueles socialmente rejeitados e acusados, preconceitos e discriminação. Daí ser um conforto para todo criminalista ver crescer, nos filhos do advogado Atticus, orgulho e respeito pela profissão do pai, como se vê no seguinte diálogo travado entre o advogado e sua filha de seis anos:
Atticus: “ - Estou apenas defendendo um negro. Andam falando que eu não deveria defender este homem”.
Scout: “ - Se não deveria defendê-lo, então por que o defende?”
Atticus: “ - Por várias razões: Eu não andaria de cabeça erguida e não poderia dizer a vocês o que fazer ou não fazer”.
Do título original vem a advertência de que nem mesmo os “mockingbirds” (pássaros inofensivos que apenas cantam lindas melodias) estão a salvo da perseguição desmotivada.
“O sol é para todos” inspira coragem e reforça a auto-estima daqueles que escolheram a advocacia criminal como profissão.
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