Na edição desta terça-feira, do Diário de Cuiabá, mantive a rotina e publiquei mais um artigo. Desta vez falando da canícula cuiabana e da depredação ambiental que sobre nós se abate. Confira:
Cuiabá, 50 graus à sombra
Por Enock Cavalcanti
Meus amigos, meus inimigos: tenho lastimado a sorte daquelas pessoas que tem que trabalhar ao sol, pelos diversos cantos de Cuiabá, para assegurar os recursos para a sua sobrevivência. São panfleteiros, são PMs, são “amarelinhos”, são garis, são motoristas, são motoboys. Tenho um dó especial destes velhinhos que deveriam ser deixados em casa, cuidando dos netinhos deles ou de outros, e são obrigados a sair gritando e vendendo picolé. Muitas vezes paro para comprar um chicabom em solidariedade a estes brasileiros. Experimentei andar, dia desses, com o ar condicionado de meu Gol desligado e a roupa ficou logo empapada de suor, veio a vertigem, a vontade de sair correndo. A moça que expus a esta silenciosa experiência foi logo me xingando: “Você precisa ter o cuidado de consertar a porra deste ar”. Cuiabá está ficando ambientalmente impraticável.
Foi Marx quem nos alertou para o perigo de que o progresso tecnológico, o desenvolvimento daqueles meios de produzir riqueza e bens que satisfaçam a necessidades das pessoas, nem sempre se traduza na libertação e na emancipação do homem. Marx escreveu sobre forças produtivas e, neste caso cuiabano, acho que devemos nos voltar para uma defesa muito séria do nosso patrimônio ambiental, sob pena de, muito brevemente, assistirmos atônitos à desertificação de nossa capital.
Nunca se teve tantos carros rodando por Cuiabá, tanto asfalto se espalhando pelos bairros, tanta mata abatida, tantos prédios crescendo rumo ao céu. Urge que esta expansão dos negócios em nossa capital se faça dentro de parâmetros muito rígidos de proteção ambiental – e, nesse sentido, seria bom mesmo se o procurador Pedro Taques resolvesse ir por Partido Verde, e contribuísse para reforçar o grupamento daqueles que, em nossa região, propagam e defendem a cartilha ambientalista. Taques, que é gordote como um porco roliço, certamente deve estar emagrecendo, desde que se pôs a circular pelo estado, exibindo sua figura para seu eleitorado potencial.
O que sei é que, desde que Blairo Maggi e a turma da botina, com seus tratores, seus bois, sua soja e suas motoserras hegemonizaram a política, em Mato Grosso, a causa ambientalista, por estas bandas, entrou numa espécie de síncope política. Nosso patrimônio ambiental está sendo dizimado, em ritmo alucinante, e muito fracas são as reações que se ouve. Com Pedro Taques, o PV, quem sabe, deixe de ser uma sigla partidária até aqui sem substância para se transformar em instrumento cotidiano de defesa das pessoas. Pois as pessoas estão sofrendo neste ambiente cada vez mais agreste à vida humana. Entre os loirinhos que vieram do Sul, os casos de câncer de pele se multiplicam.
Devo aqui saldar a ação do secretário de Meio Ambiente de Cuiabá, o jovem Archimedes Pereira Lima Neto, que agiu com presteza contra a depredação patrocinada por tratores a serviço da poderosa imobiliária Ginco, na estrada que da Chapada dos Guimarães. Só este fato já deveria ser suficiente para alertar, a todos nós, quanto à urgência de que se reveja todas as liberações de loteamentos e grandes edificações que já foram feitas ou estão em andamento na prefeitura. A alienação do homem é o primeiro passo para a sua desumanização. Precisamos desalienar-nos com relação aos que rumos que tem seguido a urbanização de nossa cidade. As áreas de preservação ambiental, que já são poucas, precisam ser defendidas como nunca. A demagogia das construtoras que vendem muito a idéia de que seus projetos são “ecologicamente corretos”, ao mesmo tempo que se põem a destruir nascentes de córregos e riachos, a desmatar, a cimentar nosso presente e nosso futuro, precisa ser repelida. O planejamento urbano nunca foi tão vital numa cidade como esta Cuiabá onde se vive sob 50 graus – ou mais. E agora, as súbitas quedas de temperatura se tornaram também cíclicas, arrebentando com o organismo de pessoas velhas e aturdidas como este repórter. E a umidade do ar está sempre a nos faltar. Importante, portanto, é que não nos faltem os governantes ou os utópicos para defendermos, neste quadro tão doloroso. Senão, ficarei também a ecoar um daqueles protestos da suada amiga que viajou comigo no carro com ar desligado: “Que merda, cara, viver dentro de uma sauna não é minha praia!“
* ENOCK CAVALCANTI, jornalista, é titular do blog www.paginadoe.com.br
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