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Eduardo Mahon: O público sempre gosta quando o palhaço cai no chão. O mesmo se dá com as desventuras dos advogados

03/12/2009 - 22:37:00

Honorários e Semoventes

Por Eduardo Mahon
 

O público sempre gosta quando o palhaço cai no chão. O mesmo se dá com as desventuras dos advogados. Talvez por isso, sejam tão divertidas as peripécias dos causídicos. Na semana anterior, contamos o golpe do honorário. Aquele cliente que me deixou rico por dois dias e não tinha dinheiro para pagar o cartão do telefone público. Mas a criatividade dos salafrários não acaba por aí. Há outras figuras que merecem destaque no rol do anedotário aqui do escritório.
Certa ocasião, um colega mais chegado me telefonou – estou levando um cliente; parece que é milionário. Essa palavra é uma espécie de senha para pilantragem. Esperamos. Café no ponto. Sala arrumada. Escovei os dentes. Ajeitei a gravata. Quando saí de uma reunião e entrei na minha sala, lá estava o sujeito. Chinelo de dedo. Unha encravada. Camisa de manga. Mau sinal. Contou que tinha um irmão preso. O caso era roubo de gado. Pois bem, aceitávamos as cabeças e o corpo inteiro dos semoventes. Torci o nariz para o papo. Os demais advogados, já ansiosos com a participação. Vamos adiante.
Aquele sujeito tinha aspecto de rico esculhambado. Daqueles que não gostam de exibir riqueza. Há desses casos crônicos de humildade dissimulada. Freud explica. O fato é que me pediu a conta. Assim, na lata. Os olhos do colega brilhavam. Calculei o problema e os bovinos – disparei. O sujeito não tremeu a cara. Nem piscou. Pegou papel e caneta e rabiscou a forma de pagamento. Queria parcelar. Parcelamos. O que se há de fazer? Disse que voltaria com um saco de sal, repleto de dinheiro. Auspiciosa notícia. De qualquer forma, a conta foi mesmo salgada. Ninguém estranhou.
Apostei com o colega de escritório que não voltava. Não deu outra: era golpe. O cidadão pegava advogados à socapa para tomar-lhes o carro e quem sabe mais alguma coisa, confiscando paletós até as abotoaduras. As horas correram. Meu colega olhou pra mim, fez um muxoxo de frustração. Perdemos o caso, não a piada.

Eduardo Mahon é advogado, doutorando em Direito e membro da Academia Mato-Grossense de Letras.

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