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KEKA WERNECK: O escândalo do Tribunal de Justiça de Mato Grosso é um canto a Karl Marx, que disse, sabiamente, no século passado: “Tudo que é sólido desmancha no ar”.

09/03/2010 - 08:30:00

“Tudo que é sólido desmancha no ar” (e o escândalo do TJ-MT)
 
* Por Keka Werneck

 

Eu ainda estava na faculdade de Jornalismo, na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde me formei, quando fiz uma matéria sobre a desigual pirâmide salarial no Brasil. Isso já faz tantos anos, quase 20, duas décadas...O tempo voa! Mas nunca esqueci que os braçais, como garis, estão no assoalho da pirâmide: por isso vivem muito mal, comem mal, vestem-se mal, são mal tratados; e os magistrados, como juízes e desembargadores, no topo: portanto vivem muito bem, comem bem, vestem-se bem e são bem tratados. Quis refletir na matéria sobre o porquê do abismo salarial entre as duas categorias, que, para o mundo do trabalho, têm papéis tão relevantes. Tinha poucos elementos políticos à época. A matéria ficou limitada aos dados que consegui, a entrevistas, pesquisas e à voz do meu coração. Eu acreditava na imparcialidade. A escola clássica de jornalismo ensina e reforça essa idéia até hoje. Mas a imparcialidade é uma lenda. Não há imparcialidade. E não há motivos para tamanho abismo salarial, a não ser a luta de classes, claro!

Satisfez minha sanha por um tempo a explicação de que juízes e desembargadores devem ganhar muito bem mesmo, porque assumem tarefa hercúlea, de grande vulto social. Imaginem vocês o complexo que é dizer quem está certo, quem está errado. Ganhar bem significa para os magistrados cerca de R$ 30 a R$ 40 mil por mês.

Se é tarefa nobre julgar, os garis fazem o quê? Mal damos conta de cruzar com um caminhão caçamba na madrugada silenciosa da cidade, passando de carro, que é ato instantâneo acelerar um pouco mais e tapar o nariz. Quem cataria o nosso fétido? Esses homens que, para quem olha ao longe, de dentro de seus Corolas, talvez pareçam ser de fato de uma estirpe inferior, ao ponto de dialogarem com bichos de esgoto. E há uma naturalização disso. Então fica combinado que devem mesmo ganhar mal: um salário mínimo por mês, nada mais.

Mais se os juízes ganham tão bem para que não pequem e sejam justos, porque também são atentados a ganhar ainda mais, em escusas artimanhas, em enrolados esquemas, em ardilosas transações? E por que tantos garis, ganhando tão pouco, não saem por aí roubando, matando, devolvendo à sociedade o lixo imposto a eles todos os dias?

Após a última crise do capital, o intelectual alemão, Karl Marx, jornalista, fundador da doutrina comunista, a quem a elite neoliberal internacional tentou por um século jogar no calabouço dos loucos, agora ressurge, livre da camisa de força, com sua lucidez de sempre, para nos relembrar que a luta de classes está aí e explica muita coisa. Explica por exemplo o abismo salarial entre juízes e garis. E também indica saídas. “Sem sombra de dúvida, a vontade do capitalista consiste em encher os bolsos, o mais que possa. E o que temos a fazer não é divagar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o caráter desses limites”.

O Poder Judiciário, no Brasil, é um “simulacro”. Supera a realidade social. Se está sempre blindado, do outro lado da pirâmide, ou melhor, no subsolo dela, encontra-se o ladrão de galinha, totalmente exposto, sofrendo o "açoite" das penitenciárias, da opinião pública, da miséria humana. Roubou um pão? Que Morra!

Nesse episódio que macula o Poder Judiciário de Mato Grosso, devemos comemorar. Mostra a ante-sala das negociações. Não bastasse dinheiro de salários socialmente surreais, os olhos crescem também para o erário. Seria o sinal dos tempos?

Estariam em falta no mundo das togas homens e mulheres preocupados com a justiça social?

Disse muito bem o físico alemão, Albert Einstein, do alto patamar galgado pelo autor da teoria da relatividade: “Não tentes ser bem sucedido, tenta antes ser um homem de valor”. O problema é que isso não combina com o mundo do capital, onde ter é o que vale.

As coisas cheiram mal, diriam garis, que se assolam dia após dia, nessa rotina de mierda. Mas para Antônio Gramisci, político, pedagogo, filósofo e teórico marxista italiano, “contra o pessimismo da razão, o otimismo da prática”. Então, façamos um outro lugar para se viver!

É preciso denunciar! E a imprensa deve cumprir esse papel. Deve sair dos factóides rotineiros e cumprir sua função de aprofundamento e acompanhamento dos fatos.

Parece que, pela lama visível, a moralização é tarefa utópica. Mas não é.

“Mudar é difícil, mas é possível”, garante Paulo Freire, educador recifense, que se destacou pelo projeto de educação popular, voltada para a consciência, deixando um legado milionário para a construção de um povo.

O escândalo do Tribunal de Justiça de Mato Grosso é um canto a Karl Marx, que disse, sabiamente, no século passado: “Tudo que é sólido desmancha no ar”.
Sobre o escândalo, leia http://paginadoenock.com.br/ ou http://www.olhardireto.com.br/noticias/exibir.asp?noticia=Ministerio_Publico_Federal_podera_impedir_beneficio_de_aposentadoria_para_magistrados_condenados_pelo_CNJ&id=85626
 
* Keka Werneck é jornalista em Cuiabá.

Comentários
Sancho Noronha - 09/03/2010 17:45
Ou seja, blá blá blá...comunismo...blá blá blá... comunismo... blá blá blá comunismo... É com isso mesmo que vc está sonhando? Com a Albânia, com a Coréia do Norte, com a China? Valei-me Nossa Senhora...
toco1000 - 09/03/2010 12:43
Concordo em partes, vários jornalistas sofreram ameaça, aqui em cuiaba,ate liberdade de explessão foi constestada,e o sindicato não os apoiaram,agora quer que os jornalistas denunciem os magistrados, o que será que vai acontecer com esses jornalista,sendo que eles não tem um apoio seguro.....
Francisco Rocha - 09/03/2010 12:06
Mais uns 3 ou 4 aposentados não faria mal nenhum à moralização em MT. Um ou outro deputado e conselheiro, ajudaria muito. E uns promotores e advogados parentes de juízes: bem aí seria o ideal!
Paulo Lemos - 09/03/2010 11:56
Parabéns pela luta, Keka! E que Deus continue inspirando mentes e corações como seu para serem o sal e a luz deste planeta chamado Terra.
Mirna - 09/03/2010 10:35
Concordo apenas em parte com o q escreveu. Afinal, não se deve nunca nivelar as coisas por baixo. Os magistrados não ganham demais, os garis é que ganham muito menos do que deveriam, assim como as cozinheiras, os professores, os jornalistas... Em segundo lugar, em todos os ramos há gente boa e gente ruim, o que parece ter sido esquecido ultimamente. Só se diz que todo político é corrupto, que todo juiz é malandro, que todo administrador público desvia recursos, mas esquecem que toda a unanimidade é burra. Por isso acho devido separar o joio do trigo. Bom para as instituições. Foi assim que Hugo Chaves fechou o congresso e demitiu mais de 200 juízes de una vez só, deixando ativos somente aqueles que agiriam segundo a vontade dele. Isto é perigoso e nos faz temer pela integridade das instituições democráticas do Pais. Um abraço.
ZZZZZ - 09/03/2010 10:27
O QUE? ESCANDALO? É ROUBALHEIRA MESMO.!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! TEM QUE PRENDER TODO MUNDO. PORQUE DESEMBARGADOR E JUIZ FURTA, MANIPULAM SENTENÇAS E NÂO SÃO PRESOS? BORIS CASOY: ISTO É UMA VERGONHA!
Mauro Zaque - 09/03/2010 10:11
Cara Keka, Gostei muito das suas colocações e, apenas a título de comentário, gostaria de acrescentar que hoje, antes de discutirmos a importância de cada função, seja Gari ou Magistrado, devemos vislumbrar o ser humano. Penso que o que falta é "berço", não é questão salarial senão falta de comprometimento social. Enfim, devemos repensar o conceito de homem público.
vanderlei - 09/03/2010 09:05
Parabenizo-a pela excelente matéria. A imprensa, aquela ética, realmente deve sempre estar na vanguarda. Porém, é de suma importância a participação do POVO. O nosso comodismo tem permitido todos esses desmandos, pois sempre estamos na plateia assistindo a tudo, e nada fazemos!!!!
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