O espírito cristão do maior espírita brasileiro
Por Cristiano Navarro
da Redação - Brasil de Fato
Ao completar 100 anos, Francisco Cândido Xavier, responsável pela publicação de 451 livros, tornou-se o nome da mais bem sucedida estreia cinematográfica de um filme brasileiro. No primeiro final de semana de abril, mais de 590 mil pessoas foram às salas de cinema para assistir a “Chico Xavier”, do diretor Daniel Filho. Anteriormente, o recorde para a primeira semana pertencia a “Se Eu Fosse Você 2”, do mesmo diretor, visto por 570 mil espectadores.
Inspirado no livro “As Vidas de Chico Xavier” (2003), do jornalista Marcel Souto Maior, o filme é mais um entre as dezenas de documentários e ficções cine-biográficas lançadas nos últimos anos com elenco do meio televisivo conhecido do grande público.
Além do livro, o fio condutor do roteiro está baseado em duas entrevistas concedidas por Chico Xavier, entre 1971 e 1972, ao programa “Pinga Fogo” da extinta TV Tupi. Com grande audiência na época, era a primeira vez em que o entrevistado não fazia parte do mundo político. Nas entrevistas, Chico Xavier responde sobre variados assuntos, sempre com argumentações que convencem o público e os entrevistadores. Ao fim do filme, durante os créditos, é possível ver imagens reais dos programas.
Porém, o sucesso do filme não está baseado apenas no orçamento de R$ 12 milhões – boa parte investida em marketing --, em uma massiva distribuição feita em 377 salas ou nas atuações convincentes dos atores Nelson Xavier, Ângelo Antônio e Matheus Costa, que representam o espírita em três fases diferentes de sua vida. O sucesso de “Chico Xavier” está no personagem em si.
Uma vida ao outro
Nascido no dia 2 de abril de 1910, no município de Pedro Leopoldo, Minas Gerais, logo aos sete anos de idade manifestava mediunidade, afirmando poder ouvir e conversar com espíritos, especialmente com sua mãe morta quando ele tinha cinco anos. Em um ambiente fortemente religioso, o preconceito e o medo que sentia e provocava nas pessoas marcaram a infância cheia de dificuldades do pequeno órfão.
As agressões, preconceitos e ameaças o seguiriam para o resto da vida. No entanto, durante a juventude, ao tomar contato com a doutrina espírita Kardecista, Chico Xavier passa a interpretar o dom mediúnico como uma missão divina, encaminhada por seu espírito guia, Emmanuel, e, assim, começa a atender, em sua própria casa, pessoas com diferentes problemas vindas de diversas regiões.
Em 1959, depois de conflitos com moradores de sua cidade e com sua própria família devido à atração de multidões que vinham ao seu encontro, Xavier muda-se para Uberaba, onde funda um novo centro espírita e trabalha, atendendo, até a sua morte, no ano de 2002.
A palavra
Outra missão que Chico Xavier havia recebido de seu guia seria a de divulgar a doutrina espírita por meio de livros psicografados de diferentes espíritos. Tais obras foram traduzidas para dezenas de idiomas, e, somente em português, foram vendidos mais de 50 milhões de exemplares.
O primeiro título, “Parnaso de Além-Túmulo”, foi publicado em 1932. Trata-se de uma coletânea de 256 poemas atribuídos a poetas mortos brasileiros e portugueses, como Antero de Quental, João de Deus, Olavo Bilac, Cruz e Sousa e Augusto dos Anjos. O médium jamais assumiu a autoria dos textos escritos; por isso, não assumiu o título de autor mais vendido. Todo dinheiro arrecadado com as vendas foi e é aplicado em obras de caridade de centros espíritas.
O que fez de Chico Xavier uma espécie de “santo em vida”, mais popular inclusive do que a própria doutrina que pregava, não foram seus poderes de se comunicar com os mortos ou sua capacidade de escrever centenas de livros, mas seu espírito cristão de doação ao próximo.
A palavra de Chico Xavier popularizou o Kardecismo, transformando o Brasil, segundo a Federação Espírita Brasileira, no país com o maior número de seguidores e simpatizantes do espiritismo do mundo: cerca de 20 milhões, dois terços do total de 30 milhões espalhados por todo o planeta.
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