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TODAS QUEREM SER COMO ELAS - Bonitas e bem-nascidas, com faro para combinar roupas e acessórios, “it girls” ganham prestígio como lançadoras de tendências e exercem enorme influência no estilo das jovens cariocas

23/05/2010 - 09:45:00

Comportamento

Todas querem ser como elas

por Letícia Pimenta
DA VEJA RIO

   

    Na indústria da moda, o termo inglês “it” tornou-se um prefixo poderoso para designar o objeto do desejo das consumidoras. Exemplo: carregar no braço uma “it bag” significa exibir a bolsa mais incrível da última coleção. Cunhada neste século, a expressão a princípio se referia apenas àquele acessório, mas acabou incorporada ao linguajar fashion e passou a assinalar qualquer peça do vestuário irresistivelmente tentadora para as mulheres. Mais recentemente, surgiu sua principal derivação: as “it girls”. Donas de uma sofisticação aparentemente despretensiosa mas milimetricamente elaborada, elas são as jovens bem-nascidas que estão antenadíssimas com os lançamentos recém-saídos da prancheta dos estilistas, sejam eles do Rio de Janeiro, de Paris, Milão ou Nova York. Com apurado senso estético e faro para as novidades, essas moças são vitrines ambulantes de tendências. Não estranhe se você nunca ouviu falar delas, pois não aparecem na TV nem nas passarelas. Apesar de tudo, Alexia Wenk, 26 anos, Betina de Luca, Carol Buffara e Julia Monteiro de Carvalho, todas com 24 anos, têm enorme capacidade de influenciar o guarda-roupa feminino das cariocas. O quarteto faz parte de uma tribo conhecida como it girls, mulheres admiradas, copiadas e paparicadas pelo seu estilo e personalidade. “As it girls se destacam pelo visual, mas também porque conseguem conciliar isso com uma vida profissional”, ressalta Julia. “Não somos dondocas.”
   
    Há peculiaridades que ajudam a distinguir as representantes dessa seleta classe (veja o quadro). Todas estudaram em bons colégios, já moraram no exterior, falam pelo menos inglês e francês e namoram ou são casadas com homens bem-sucedidos — geralmente representantes da alta sociedade. Mas elas rejeitam de forma veemente a alcunha de socialites e demonstram apreço incomum pela própria carreira. Em sua imensa maioria, trabalham com algo ligado à moda, seja na área de criação, seja na administrativa. Outro aspecto marcante é o apego ao visual apurado, como mostram as fotos desta reportagem. O estilo das it girls pode ser definido como clássico-descolado, por harmonizar peças à primeira vista inconciliáveis, de épocas e estilos díspares. Elas abusam da criatividade para juntar no mesmo look uma cintilante calça skinny e uma tradicional bolsa Chanel de corrente dourada. Adeptas do “hi-lo”, corruptela da expressão high and low, que traduz a combinação de artigos de luxo com outros baratos na mesma produção, essas garotas superpoderosas consomem grifes estrangeiras caríssimas — Chloé, Marc Jacobs, Stella McCartney, Louis Vuitton —, mas também podem ser vistas em brechós e lojas de departamentos. O importante é que o guarda-roupa básico, digamos assim, tenha sempre uma boa calça skinny, um vestido de seda, uma jaqueta de couro, um sapato de salto estratosférico e uma bolsa chamativa. Colunista de moda da revista CONTIGO!, da Editora Abril, que também publica VEJA RIO, Lalá Noleto define bem o tipo. “Tudo o que elas vestem vira objeto de desejo imediato. É como colocar um selo de qualidade em um produto”, sentencia.

    De fato, elas têm a virtude rara de replicar, mesmo que involuntariamente, roupas, sapatos e acessórios que usam no dia a dia. Uma das perguntas que mais ouvem é “onde você comprou isso?”. História emblemática desse poder de influência foi protagonizada pela designer carioca Julia Monteiro de Carvalho, com ninguém menos que a pop star Madonna. Em novembro, quando a cantora veio ao Rio passar o chapéu entre os empresários locais em prol da sua ONG, ela jantou na mansão de Olavo Monteiro de Carvalho, pai de Julia. Ao cumprimentar a jovem, Madonna deu de cara com o anel de ouro e brilhantes em formato de caveira que ela usava. Foi paixão à primeira vista. Lisonjeada, a designer tirou a peça do dedo e presenteou a convidada. “Ela mal conseguia conversar com o restante do grupo. Só tinha olhos para o anel”, lembra a doadora. No dia seguinte, a cantora visitou o Morro Dona Marta exibindo o chamativo acessório, que na loja custa 3 480 reais. Como é praxe entre as its da cidade, Julia enveredou para o ramo comercial da moda. Há menos de um ano, abriu uma joalheria na Rua Dias Ferreira, no Leblon, onde vende suas peças de estilo punk-chic que reproduzem caveiras, esqueletos, aranhas e outras esquisitices, ao preço de 700 a 25.000 reais.

    Para o pessoal mais jovem, o termo “it” pode soar como novidade. Porém, ele já foi de uso corrente no Rio de outrora. Dizia-se que “fulana tinha it” para descrever uma mulher charmosa e classuda. Ideal de mulher para muitas, a socialite Carmen Mayrink Veiga era um exemplar típico. A expressão teve origem no cinema, precisamente quando a atriz americana Clara Bow (1905-1965) estrelou o filme mudo It, lançado em 1927. Com cabelo ruivo e olhar devastador, ela hipnotizava os homens e atiçava as mulheres. O longa, por sua vez, foi uma adaptação do livro homônimo da romancista inglesa Elinor Glyn (1864-1943), pioneira no gênero ficção erótica para mulheres e a primeira a utilizar a palavra para referir-se ao poder feminino de provocar atração. As atrizes Carmen Miranda e Audrey Hepburn foram célebres it girls. Na verdade, o termo é novo, as meninas também, mas essas personagens fazem parte da história da cidade. Nos anos 50, o colunista Ibrahim Sued apelidou de “cocadinhas” as jovens da sociedade que possuíam estilo de vida copiado por muitas de sua geração. A genealogia das meninas remonta ainda à década de 90, quando o jornalista Zózimo Barrozo do Amaral rebatizou de “patricinhas” as moças bem cuidadas da alta-roda. Sua inspiração teria sido a socialite carioca Patrícia Leal, ex-nora de Carmen Mayrink Veiga, e o termo se popularizou de tal maneira que virou verbete nos dicionários Aurélio e Houaiss. A comparação mais atual com as its cariocas envolve o quarteto de protagonistas do seriado americano Sex and the City. A jornalista Carrie, a relações-públicas Samantha, a galerista Charlotte e a advogada Miranda são batalhadoras, bem resolvidas na profissão e, acima de tudo, estão sempre impecavelmente vestidas.
   

    Do apogeu de Carmen Mayrink Veiga aos dias de hoje, os valores femininos mudaram muito. As mulheres foram à luta e conquistaram o mercado de trabalho. Nesta era pós-socialite, trabalhar tornou-se motivo de orgulho para as herdeiras das “cocadinhas”. Carol, Betina, Julia e Alexia dão um duro danado. A primeira delas a encarar o batente foi Carol. Após largar a faculdade de jornalismo no último período, ela abriu, em 2006, a loja multimarcas Nag Nag, em sociedade com a prima Tatiana Bonaparte. Carol teve a ideia, e seu pai, um empresário do ramo de armazéns industriais, entrou com o dinheiro. Quatro anos depois, a moça comemora o sucesso da iniciativa. “Consegui pagá-lo em seis meses”, conta Carol, adepta dos saltos altíssimos e dos vestidos curtos, que escancaram suas pernas bem esculpidas com corridas na Lagoa. Seus planos de expansão preveem uma linha de produtos para casa e outra de roupas masculinas. Betina chegou a completar o curso de jornalismo, mas logo se bandeou para a moda. Há três anos, é diretora comercial da grife Filhas de Gaia. De início, as roupas da marca eram revendidas em duas lojas da cidade. Hoje, os vestidos, que custam em torno de 800 reais, podem ser encontrados em quarenta pontos de venda do Brasil, bem como em Los Angeles e Singapura. “Adoro moda, mas não tenho talento para estilista. Sou boa de vendas”, afirma.


    Quem as vê sempre bem produzidas pode ficar com a impressão de que são frenéticas consumidoras. Elas juram que não. Dizem ser compradoras seletivas, daquelas que procuram qualidade pelo melhor preço possível. Salvo, claro, quando veem aquela peça... “Fico sem gastar um ano inteiro só para ter algo da Stella McCartney ou do Alexander McQueen, meus estilistas preferidos”, conta Betina. Frequentadora de brechós no exterior, Alexia resolveu fazer desse hábito de garimpar roupas o seu negócio. No ano passado, ela abriu no Leblon o Vintage House, reduto de grifes de luxo de segunda mão. Mesmo escondida em um prédio de três andares na esquina das ruas Aristides Espínola e Dias Ferreira, a loja tem um entra e sai constante. Ela começou o negócio ligando para as amigas da mãe e perguntando se não tinham nada parado no armário. A fórmula, que perdura até hoje, é assim: 50% para a dona da roupa, 50% para a casa. Atualmente, já há oitenta fornecedoras fixas. Em seu brechó as clientes podem achar peças de Marc Jacobs, Mulberry e Hermès, entre 50 e 2 000 reais. “Meu objetivo é ganhar dinheiro com o que está esquecido no guarda-roupa”, diz Alexia.

    As its cariocas têm um cotidiano agitado, nada surpreendente em razão da vida que levam. Sua rotina inclui viagens a São Paulo para reuniões com fornecedores e compradores. Vão ao exterior ao menos duas vezes por ano, a turismo ou a negócios. Londres, Paris, Miami e Nova York são paradas obrigatórias. Para o descanso mais curto, Búzios e Angra. No Rio, o roteiro de lazer inclui os restaurantes Zuka, Carlota, Sushi Leblon — todos no habitat delas, a Rua Dias Ferreira —, Guimas, na Gávea, e a creperia Le Blé Noir, em Copacabana. Bem ao estilo casual chique, elas vão também a botecos, a exemplo do Bar Urca, e Alexia costuma ser vista na pista de dança da Casa da Matriz, um lugar para lá de democrático em Botafogo. Mas ela é exceção. Noitadas em boates, nem pensar. Apesar de receberem inúmeros convites (afinal, a presença delas dá o que falar), só costumam ir a festas na casa de amigos. Mas, quando aparecem, transformam o ambiente. “As its estão ocupando o posto que foi das estrelas de cinema nos anos 50 e 60 e das top models nos anos 80 e 90”, exagera Alessandra (Alê) Garattoni, uma administradora de empresas que há três anos assina um blog sobre o tema. De todo modo, as celebridades que se cuidem. Essas meninas tornaram-se um novo poder na cidade.

Comentários
Paulo - 23/05/2010 17:00 - Ip: 189.59.55.22
"it girls" putz seu inglês está péssimo mesmo se é que podemos chamar isso de inglês mesmo. Vai estudar.
Vermes - 23/05/2010 13:45 - Ip: 189.11.198.3
Situação ridícula dessa nova tendência, e pessoas como essas que lançaram a tendência não passam de pequenas coisas e, como já disse Ihering: quem se transforma num verme não pode se queixar de ser pisado aos pés dos outros.
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