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GRANDE, COMO ERA GRANDE - Morre José Saramago, um escritor e Prêmio Nobel da Literatura que promoveu a rebeldia

18/06/2010 - 11:15:00

LISBOA — O escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura 1998 que faleceu nesta sexta-feira aos 87 anos de idade, é autor de densos romances que ficam no limite do fantástico e que convidam o leitor a rebelar-se contra o status quo mundial.

Ele nasceu em novembro de 1922 na aldeia de Azinhaga (centro de Portugal). Filho de agricultores sem terra que imigraram para Lisboa, abandonou a escola aos 12 anos para receber formação de serralheiro, um ofício que exerceria durante dois anos.

Depois de um primeiro romance em 1947, "Terra de pecado", esperou 19 anos para publicar seu segundo livro, "Os poemas possíveis".

Enquanto isso, trabalhou na área administrativa ou em editoras e colaborou com vários jornais.

Em 1969 aderiu ao Partido Comunista, nessa época clandestino, e participou em Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974 que pôs fim à ditadura de Salazar.

Seu segundo romance, "Manual de pintura e caligrafia", foi publicado em 1977. Em 1982, quando tinha 60 anos, alcançou a celebridade com "Memorial do convento", um romance romântico ambientado no século XVIII.

Em 1992 causa escândalo em Portugal com "O Evangélio segundo Jesus Cristo", onde descrevia Jesus perdendo sua virgindade com Maria Madalena e sendo usado por Deus para estender seu domínio no mundo. A partir desse momento, Saramago deixa seu país e se instala no arquipélago espanhol das Canárias.

Em agosto de 2008, apenas recuperado de uma grave pneumonia, publicou "A viagem do elefante", seguido, um ano depois, por "Caim", que descreve de forma irônica o relato bíblico do assassinato de Abel por seu irmão Caim.

Durante a apresentação desse livro, Saramago, que descrevia a si mesmo como um " comunista libertário", causou novamente uma polêmica ao classificar a Bíblia de "manual de maus costumes".

Atualmente estava preparando um livro sobre a indústria do armamento.

"Não será sobre o Corão, mas será sobre algo tão importante quanto todos os corões do mundo: por que não há greves na indústria do armamento". "Uma greve na qual os operários digam: 'Não construímos mais armas'", afirmou, em entrevista em novembro.

"Todo mundo tem armas, vivemos numa sociedade de violência, que é aceita e a televisão está nos dizendo todos os dias que a vida humana não tem nenhuma importância", acrescentou.

Em 60 anos, José Saramago publicou cerca de 30 obras: romances, poesias, ensaios e obras teatrais.

 

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Leia a repercussão da morte do escritor José Saramago


"O escritor José Saramago mantinha relações privilegiadas com o Brasil. Esteve presente em diversos eventos literários no país e se tornou muito popular antes mesmo de conquistar o Prêmio Nobel. Em romances como "O Ano da Morte de Ricardo Reis", o Brasil faz parte das reflexões do grande escritor. A sua perda é recebida com muita tristeza, particularmente pelos que têm apreço pela língua portuguesa e por sua importância cultural em tantos continentes. O Ministério da Cultura do Brasil se soma aos que lamentam e manifestam a dor pela perda desse grande escritor."

Mais sobre José Saramago

Juca Ferreira, ministro da Cultura


"A obra dele era a cara dele, é tão coerente com o que ele militou, com o que fez. Além de português, era um grande brasileiro, as questões brasileiras o interessavam, era inteiramente ligado ao Brasil. Um figuraça, um grande militante de base além de um grande escritor."

Sebastião Salgado, fotógrafo, amigo e companheiro de militância de Saramago

"É uma grande perda para a literatura. A obra de Saramago est´ao lado das grandes obras de literatura e com o tempo vai ganhar força. É um estímulo para qualquer escritor, uma referência que vai ficar."

Gonçalo M. Tavares, escritor português

"O Saramago foi um autor importantíssimo para mim, não foi à toa que eu decidi montar a [adaptação do livro] "Memorial do Convento", na época que eu li foi transfomador como concepção de literatrua contemporânea e propôs para mim uma coisa completamente inovadora."

Christiane Jatahy, diretora teatral

"Senti grande emoção ao tomar conhecimento da notícia. Sabia que ele estava frágil, doente, mas sempre pensei em Saramago como um imortal por sua própria obra, por seu lado humano. Ele é eterno."

Nélida Piñon, escritora

"Ele é o nome mais importante em língua portuguesa nos últimos 40 anos. Ele é o grande herdeiro de uma tradição da rica crônica portuguesa de Fernão Lopes. 'Memorial do Convento' foi a [obra] porta de entrada para mim em sua obra."

Cristóvão Tezza, escritor

"Saramago é um escritor importante sem dúvida. Deu uma contribuição à literatura de ficção pela originalidade de seu estilo. Tinha uma maneira muito pessoal de lidar com a língua portuguesa. As inovações que ele introduziu à prosa brasileira o distingue. Tinha muita imaginação e criatividade e, além do mais, era um escritor polêmico, que criou um instrumento de discussão dos problemas da atualidade."

Ferreira Gullar poeta e colunista da Folha

"Com a morte de Saramago, o mundo perde um de seus grandes escritores. E a literatura de língua portuguesa perde não somente um grande escritor, mas um intelectual de posições marcantes, que sempre soube defender com coragem e brilhantismo."

João Ubaldo Ribeiro, escritor

"A obra do Saramago foi importantíssima para a literatura da língua portuguesa. Acho que ele trabalhava com alegorias e nisso construiu uma obra inovadora em certo sentido. Por exemplo pelo fato de não indicar narrador. Os narradores e os personagens falam no fluxo contínuo, como se fosse uma espécie de oralidade contínua, sem cortes, sem indicações. Isso não é uma novidade porque alguns escritores do modernismo já usavam essa técnica, mas ele ajudou a criar um grande público de leitores para uma obra consistente, o que não é comum. Na América Latina, só havia escritores de qualidade de língua espanhola que tinham alcançado grande público. O Saramago dialogou com a litetatura da língua.

Também tem um sentido histórico na obra dele que é muito importante. Ele trabalha com elemento constitutivo do romance moderno, que é a história, o sentido da história. É o romance sem ser o romance histórico propriamente dito. Ele fez isso em vários momentos, como na 'História do Cerco de Lisboa', que é um belo romance com fundo histórico importante.

Ele também criticava todo tipo de injustiça e isso não é muito comum hoje em dia. Tem um lado humanista, solidário que acho importante também na obra dele."

Milton Hatoum, escritor

"Perco um grande amigo. Perdemos todos um ser humano admirável, um escritor imenso, zelador apaixonado da língua portuguesa."

Chico Buarque, músico

Comentários
Vicente Fernando Oliveira de Araujo - 18/06/2010 19:27 - Ip: 187.52.120.75
José Saramago finalmente ganhou a liberdade e alçou voo livre. Certamente, como consequência lógica do que sempre creu e pregou, encontrará céus, infernos e purgatórios porque sempre acreditou profundamente nessas realidades. José Saramago foi, durante toda sua existência entre nós, refém do pensamento católico e, por consequência, refém da imagem de Deus que permeia aquele modo de pensar. Seu ateísmo e sua dialética foram pautados pelo Catolicismo e ele jamais conseguiu romper esses limites mentais para um enfrentamento mais amplo acerca das imagens de Deus que outras culturas e outras formas de pensar oportunizam. Isso se explica pelo fato de que nasceu, viveu e formou a base de seu pensamento no ambiente predominantemente católico e jamais conseguiu romper os limites de seu cativeiro mental. Mas pela sua capacidade de indignação, certamente a passagem para uma nova dimensão trará a oportunidade de novas indagações e descortinamentos que irão realimentar e redirecionar sua dialética, agora mais livre e em melhores condições de alimentar seu Espírito Eterno. Uma boa viagem ao poeta e escritor. Que Deus o acolha como um filho rebelde que retorna à casa paterna.
Keka Werneck - 18/06/2010 17:38 - Ip: 187.6.7.113
Morre um dos meus escritores preferidos! Perco eu, perdem todos e todas, perdem os que leram e não compreenderam (mas podem revisitá-lo...), os que acham metideza quebrar o statos quo, perdem os que misturam Lenin e Stalin num mesmo saco, perde a literatura de todos os tempos internacional. Reaprendi a escrever com Drumond e Saramago, que, com estilo próprio e desafiando a língua, deu uma grande banana para os que pensam sempre que a gente deve andar no mesmo trilho sem questionar, sem a coragem de pular do trem e seguir a pé, andando pelo bosque, demore o tempo que demorar...
Lobo do Ártico - 18/06/2010 15:16 - Ip: 187.5.85.63
Acredito que foi um intelectual que, assim como tantos ícones, cada qual na sua área, artes, futebol, a política - a verdadeira, e ciências, não cabia dentro de si mesmo, e deixa ao mundo seu legado, o que nos obriga a ter vontade de questionar, ao revés da medíocridade que se prestam os que torceram o nariz pela seu passamento, os mesmos que também passaram, e sequer citados serão...
Alecil Moura - 18/06/2010 14:22 - Ip: 187.5.109.194
Uma grande perda. Lamento o fato de ele ter sido ateu.
medeiros - 18/06/2010 11:53 - Ip: 189.59.58.6
Fosse eu um escritor de cordel e estaria escrevendo agora uma "A chegada de José Saramago ao inferno", onde Marx, Engels, Lênin, Stálin e toda a quadrilha deve estar a aguardar o gajo, com uma bandinha de demônios a tocar o hino da Internacional. Infelizmente, não sou, então, só registro sua passagem desta para pior. A indústria de best-sellers metidos a clássicos perde um de seus astros. A literatura, nada.
Denizalde Pereira - 18/06/2010 11:25 - Ip: 189.74.35.81
Estamos todos de luto! Siga em paz, camarada! Ass: Prof. Denizalde Pereira, UNEMAT, Sinop.
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