Alguém aí se lembra da Literamérica?
Por Wander Antunes
Aquele 2005 prometia ser um ano importante para autores, editores e leitores mato-grossenses, um divisor de águas, nesse ano se criou o que nos foi apresentado com um importante instrumento destinado a ‘incentivar a produção e o consumo literário regional’. A base de toda essa transformação era uma iniciativa de Estado e sociedade chamada Literamérica - Feira Sul-Americana do Livro de Mato Grosso. E como duvidar de seu alcance? O entusiasmo em torno da feira, veiculado nos meios de comunicação, não dava espaço para pessimismo em relação ao futuro da difusão literária no Estado: Literamérica vem alimentar fome de leitura. Literamérica vem para marcar e ficar. Literamérica vai movimentar o mercado editorial em Mato Grosso. Bem, realidades não se transformam apenas com slogans publicitários ou com discursos triunfalistas, de modo que passados cinco anos da primeira, tivemos duas Literaméricas, é o caso de nos perguntarmos se ela saciou mesmo a fome de leitura do mato-grossense, se ela marcou e ficou ou ainda se movimentou (de modo permanente) o mercado editorial.
Uma pausa, enquanto vamos pensando sobre isso, para nos situarmos: após suas duas primeiras edições, 2005 e 2006, chegou a se falar em uma Literamérica 2007, essa terceira edição seria realizada em novembro, para em seguida anunciarem que ela aconteceria no ano seguinte e que a partir de então se converteria em uma bienal. A edição de 2008 aconteceria ainda no primeiro semestre daquele ano. Não aconteceu. Mais tarde, conforme se pode verificar em registros muito tímidos na mídia, ainda chegou a se falar em uma Literamérica 2009, que aconteceria em outubro, mas essa também não aconteceu - a de 2006 foi a última até o momento presente. Bogart diria aos pessimistas para relaxar e esperar, que sempre teremos o futuro, mas o fato é que não se pode dizer que a Literamérica ficou, justo ela que veio para ficar. Não ficou (ao menos por hora), porém marcou? Qual seria a marca de um Mato Grosso pós duas edições da Literamérica? Uma boa pergunta para leitores em geral, para editores, autores e educadores. Não se pode aceitar que o comemorado ‘abraço de tantos países e órgãos à Literamérica’ tenha resultado em um esforço incapaz de deixar sua marca transformadora. Se tal transformação dependia de outras edições, dependia de continuidade, é de se perguntar porque a administração pública não se comprometeu verdadeiramente com suas novas edições e também é de se perguntar porque a sociedade não exigiu sua continuidade. Ao longo desses anos todos, sempre que abro os jornais me lembro das manchetes de ainda há pouco, do clima de ‘agora vai’ daquele 2005 e fico me perguntando porque eles não trazem artigos de educadores, leitores, editores ou autores se perguntando: por que parou, parou por quê? Será que ninguém sente a falta que a Literamérica nos faz? E será que faz? Será que esse silêncio todo se deve ao fato de, contra tudo o que foi dito, não haver um antes e um depois da Literamérica? Se há (alguém teria informações que permitam avaliar seu impacto? Existe um relato oficial do antes e depois?), por que não fomos capazes de defender algo tão transformador assim, que projeto de comunidade é o nosso, que deixa as boas iniciativas morrerem desse jeito? O que acontece com a gente, por que é que nós somos assim? Será que não estamos tão comprometidos com a formação de leitores, com o incentivo a produção e ao consumo literário regional? Ou será que seu esvaziamento se deve a compreensão de que a fome de leitura é como todas as fomes e tem que ser saciada diariamente? Que um evento como aquele, sem uma série de movimentos e investimentos anteriores (e posteriores), não vale mesmo a pena? Vai saber.
Fui um dos entusiastas da feira quando de seu nascimento – é difícil não se encantar com o movimento -, depois me pareceu que se investia muito capital em um evento de uma semana, fiquei imaginando que esse dinheiro – alguém sabe quanto? – traria melhores frutos se aplicado em um esforço permanente de edição e circulação de obras. Já imaginou se todos os anos, chovesse ou fizesse sol, fosse o governo esse ou aquele, fosse o secretário o fulano ou beltrano, tivéssemos certeza de que entre o primeiro e o último dia do ano teriam sido editados X (aqui X sendo igual a muitos e bons) títulos? Ah, e não editados de qualquer jeito, não tudo de uma vez pra se fechar uma determinada meta anual, mas de modo organizado, dentro de uma periodicidade razoável). Editados, mas não só!, que tivéssemos a garantia – essa que só a informação transparente assegura - de que essas obras circulariam e seriam lidas. Seria uma ação mais eficaz que uma feira (ao menos eu acho), talvez não tivesse a mesma cobertura midiática, mas acredito que suas possibilidades transformadoras seriam bem maiores, e permanentes. Falei em edição e circulação de livros? OK, mas não apenas, certamente que esse esforço formador de leitores (e de autores, editores, de cidadãos) contaria ainda com o apoio de palestras e oficinas. Mas só investimento em literatura seria capaz de transformar Mato Grosso? Claro que não. Seria preciso garantir, tomando o teatro como exemplo, que X peças seriam montadas todo ano e que ano após ano o circuito teatral seria ampliado em X%. Que se estabelecessem metas, se atingissem metas e se criassem novas metas. E que para além da literatura e do teatro, toda a atividade cultural tivesse igual tratamento, que houvesse tesão e ambição na gestão da cultura. Sem miragens no horizonte, sem investimentos milionários hoje que serão descontinuados (e esquecidos?) amanhã. Acredito que hábitos são criados quando há oferta permanente de alguma coisa. O livro está à mão? Aposto e ganho que há um leitor por perto. O cinema mato-grossense é um fato? Anualmente são produzidos um número significativo de filmes? Esses filmes são exibidos? Então vai se criar um público para este cinema. Existe um circuito de teatro? O público pode se programar para assistir X peças anualmente? Se puder ele vai ao teatro – é o tal do hábito, siminino. O fundamental é que exista um circuito, é que exista compromisso com a continuidade das ações empreendidas. Pode parecer pouco festivo e midiático, mas é o jeito que funciona e dá bons frutos. O resto é outra coisa, é teatro (mau teatro, bem entendido).
Wander Antunes é roteirista de histórias em quadrinhos
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