Mato Grosso é fogo! As queimadas, as fumaças e suas metáforas
por Maria Fátima R. Machado
A fumaça não traz apenas graves problemas respiratórios, como alguns podem pensar, ao constatar o pronto-socorro entupido de gente. A fumaça também turva os sentidos, dá uma sensação de alheamento, de torpor, o cérebro parece ficar com preguiça, confunde alhos com bugalhos, deixa as pessoas com cara de... pastel, digamos assim. É por isso que estou convencida: os nossos políticos fuleiros, em franca campanha eleitoral, estão usando a fumaça como arma de guerra! Eles não me enganam! Você já notou como os meios de comunicação, esses que são concessões públicas, lidam com as queimadas? É um treco burocrático, as moças e moços fazem cara de nada, cara de quem concorda com o pensamento da maioria bestializada, orgulhosa dos feitos da meia dúzia de espertos de Mato Grosso: “são as agruras do progresso”. Você não quer “o progresso”? O “progresso” é assim! No “progresso” você não respira, mas compra carro, que te leva pra Chapada, para se entupir... de fumaça. Aquelas pessoas na Salgadeira, expondo suas barrigas na beira de estrada, olhando para o vazio, mirando os símbolos da sua riqueza aparente no asfalto quente, parecem zumbis, envoltas em uma névoa fedida, saídas de um filme. Surreal. Vão votar em quem, será? Alguém tem alguma dúvida?
Era nisso que eu pensava quando descia as escarpas da Chapada no domingo à tarde, voltando cansada para Cuiabá, esgotada em minhas forças – que não são muitas - depois de um fim de semana infernal, em que me aconteceu o pior: o fogo devorando o entorno da minha casa, prestes a chegar com suas labaredas assustadoras na “minha” mata, da “minha” floresta amazônica, onde vivem em paz os mais amados pássaros do planeta, em seu pequeno jardim de delícias, pleno de alimentos e de abrigos. A dor é irreparável, o risco é imenso, a indignação, o sentimento de impotência não tem tamanho ao ver o que restou de uma mata queimada. Depois de lutar por uma tarde, uma noite e uma manhã, tentando impedir que as chamas recomeçassem (e elas recomeçam, e recomeçam e recomeçam...), só me restou sentar no chão, num cantinho da varanda, e chorar. Tinha acabado a água!! A água que eu transportei sozinha, com as minhas mãos, com um carrinho de malas de aeroporto (como sou desprevenida!) , em garrafões e em baldes, com um estoque emprestado pela freira, minha vizinha da frente. Carreguei para abastecer o meu marido, que foi um herói, enfrentando com suas forças as labaredas e a fumaça. Alguns vizinhos ajudaram nos piores momentos, e devo também a eles a nossa vida e a vida da floresta que restou em volta de mim.
Tudo começou quando, depois do almoço de sábado, ainda meio sonolenta da minha sesta, ouvi o pavoroso estalar das labaredas bem perto. Fogo! Fogo! Meu cérebro processou em um segundo a mensagem mais terrível e eu saltei da cama, para ver o fim do mundo chegando. Em desespero, entramos no carro em busca do bem mais precioso da Chapada: a água. No SAAE? Nada. Nem sinal de viva alma. Como pode!? Fomos parar na delegacia (!), perguntar se alguém tinha alguma idéia que pudesse ajudar, nos tirar do desespero. Nada. Quando já saíamos, a pessoa de plantão lembrou-se de ver alguém, com um pequeno reservatório, no bairro São Sebastião. Foi uma luz! Quando chegamos, um ser divino saía com seu trator, puxando um pequeno tambor velho com o líquido da vida, que ia lavar o chão de uma moradora, uma juíza, que já estava esperando, impaciente. “Sabe como é... é do judiciário...” - ele disse. Pedi, implorei, e consegui o milagre de fazer a juíza esperar, vendo o trator se arrastar preguiçoso pelas ruas empoeiradas, tentando apressá-lo apenas com a força da minha mente.
Mas a mangueira era curta! Não era para apagar fogo, era para lavar a casa da juíza. Foi feito o possível, destruindo as labaredas mais tenebrosas, até onde a mangueira pôde alcançar, enquanto o fogo se alastrava com uma rapidez indescritível, pelo mato adentro, na direção do vizinho dos fundos, explodindo nas árvores secas e ocas, como fogos de artifício (odeio fogos de artifício!).
Quem pôs fogo nessa mata? – a gente quer saber, procurar o começo de tudo, entender o porquê de tanta insensatez, tanta loucura de alguém disposto a acender uma primeira chama, a chama vital de uma tragédia de morte. Entre investidas para apagar os focos, que teimavam sem parar, foi possível ver o estrago em volta: uma chácara com pasto, totalmente empretecida, os animais pisando no chão quente, cachorros com olhar de pânico, uma casa aparentemente intacta, perdida na imensidão destruída. Cerca, porteira, tudo. Ainda pude correr e com os meus baldes apagar as chamas que começaram a se formar quando o fogo pulou a estrada e atingiu o mato seco do vizinho de cima. Salvei! Salvei! Consegui salvar! Então vi que o fogo veio de longe e ainda estava lá, se alastrando na baixada e subindo em uma enorme linha no horizonte. Será vingança? Vingança do mundo? Um peão humilhado? Um bêbado? Uma mulher traída? Uma criança sem pai?
No domingo à tarde, ainda lutando contra os focos, ao devolver os baldes para as freiras, cujas rezas desviaram a direção do fogo – descobri para o que servem as rezas, elas são muito práticas! - surgiram do nada três crianças, uma delas suja de fuligem. Estavam “só olhando”, interessadas em um gatinho (!) que viram entrando ali, no limite do que restou. “Esse gatinho é seu? Você mora aqui?” – perguntou um deles, com um ar de estranha, muito estranha inocência. Eu poderia jurar que ele estava simulando... “E você? Mora Onde? Sabe quem começou esse fogo?” – perguntei ao mais sujinho. “Moro atrás do cemitério” – ele disse. Pois eu, por pouco não vi ali, sob o sol cinzento e sufocante, uma alminha penadinha, dentre tantas almas penadas que vivem atrás do cemitério da Chapada, onde vagam livremente bois, cavalos, cachorros, ratos, entre os montes de terra que cobrem os mortos.
“O fogo começou no Sol Nascente” – me disse, por fim, o sujinho, com um ar quase professoral, que não admitia suspeita. E saiu apressado, com seus passinhos duros, puxando a fila dos outros, sumindo pelo caminho de terra, depois que eu disse ter chamado a polícia, que poderia suspeitar deles, achar que eram os autores do crime por vê-los ali.
No Sol Nascente. Então, se a tragédia começou no Sol Nascente... Que ironia. O Sol Nascente é um aglomerado de gente, para as quais não nasce o sol. Um amontoado humano dentre outros que surgiram na Chapada, para alegria dos políticos fuleiros, com o movimento migratório do sul, abrigando os traídos pela ilusão do “progresso”.
Cuiabá das Fumaças, 02 de setembro de 2010, dia do meu aniversário.
Maria Fátima R. Machado é professora do Deptº de Antropologia da UFMT
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