A preservação do Cerrado
Por Serys Slhessarenko
Participo até domingo, 23 de novembro, do Fórum da GLOBE de Legisladores das Américas, que acontece no México. Um dos encontros mais importantes da América, no qual irei participar, representando o Brasil. Parlamentares do G8 (Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos), do +5 (Brasil, China, Índia, México e África do Sul) e de todos os países das três Américas (Sul, Central e Norte) estarão reunidos com o objetivo de avaliar uma estratégia para enfrentar o duplo desafio das crises financeira e climática mundiais.
Ressalto que todos os países desenvolvidos e em desenvolvimento devem assumir responsabilidades com relação aos impactos ambientais, mas elas têm quer ser diferenciadas. Este Forum é especial, pois é a primeira vez que um encontro deste tipo acontece exclusivamente para falar sobre o impacto climático em nosso continente.
Sou parlamentar por Mato Grosso, um Estado que possui três biomas diferentes: o Cerrado, o Pantanal e a Floresta Amazônica. Sou conhecedora destes ecossistemas e trago para a discussão a importância deles, em especial o nosso Cerrado: um dos mais complexos e importantes do Brasil, com uma rica biodiversidade, mas que tem sido negligenciado por anos, sendo destruído e explorado de forma irreparável.
O Brasil, com a sua dimensão continental, apresenta diversos ecossistemas que foram definidos e limitados ao longo do tempo, em decorrência das características climáticas, do solo, da topografia e da biodiversidade. Em alguns desses ecossistemas, a variabilidade climática já é suficiente para imprimir sinais significativos, não apenas nas condições naturais da biodiversidade, como também nas atividades sócio-econômicas.
Cerrado e Pantanal, apesar de pouco conhecidos, compartilham da mesma condição, ou talvez até pior, que a Amazônia. Estão em situação de grande exploração e pouca preservação. O Cerrado brasileiro tem uma área aproximada de dois milhões de Km², possui diversos ecossistemas e uma riquíssima flora, com mais de dez mil espécies de plantas. Sua biodiversidade representa em torno de 5% da biodiversidade de Planeta. Porém, a região vem sofrendo um intenso processo de desmatamento e degradação, acentuado nos últimos anos.
Ao lado da biodiversidade, a questão hidrográfica é outro motivo para maior preocupação com esta vegetação. É a grande “caixa d’água” do continente sul-americano, concentrando as nascentes das bacias do Amazonas, Tocantins, Parnaíba, São Francisco, Paraná e Paraguai. Além disso, encontramos na região do Cerrado importantes aqüíferos. Este ecossistema mantido vivo é garantia de água doce para o futuro.
Visto unicamente como uma área para expansão da fronteira agropecuária, à disposição para a exploração total. Segundo estimativas de Acadêmicos da Universidade Federal de Goiás, se a exploração continuar neste ritmo, em menos de 20 anos não haverá mais cerrado, ele desaparecerá. Existe no Brasil, a idéia de que a devastação do cerrado é um bom preço a ser pago pela preservação da Amazônia. Mas não entendo assim, apesar do poder de recuperação do Cerrado ser maior que o da floresta, a sua exploração descontrolada e sem sustentabilidade é tão prejudicial quanto à devastação da Amazônia.
Assim como outros ecossistemas, quando alterados na sua composição e no seu uso, acabam influenciando as mudanças climáticas, por proporcionarem a liberação daquele carbono que estava estocado nas vegetações.
Não podemos negar que há um esforço atual para aumento de áreas protegidas no Cerrado, entretanto ainda insuficientes, não passa de 5% da área. Acredito que a meta de 10% já representaria uma grande vitória. Os governos Estaduais e Municipais, assim como a sociedade civil e o setor privado devem estar incluídos nesta luta pela preservação.
Serys Slhessarenko, professora aposentada da UFMT, Mestre em Educação, é senadora da República pelo PT-MT