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Fonte: http://paginadoenock.com.br/

Paradoxos cotidianos: brutalização e infantilização das relações, por Alair Silveira

25/11/2008 - 11:37:00 | Comentários ( 0 )

Paradoxos cotidianos: brutalização e infantilização das relações 
Por Alair Silveira

 

Há tempos atrás, o papagaio Loro José foi responsável pela aula inaugural de estudantes de Comunicação Social, em uma faculdade de São Paulo. Orgulhosa, a “mamãe” Ana Maria Braga exibiu trechos da “palestra” no seu programa global. Ao destacar a enorme acolhida que o papagaio teve no evento, a mamãe coruja também apresentava flashs que davam conta do tamanho do público presente, assim como das expressões de encantamento por boa parte dos calouros.
Ao lado do papagaio galanteador que conta piadas, também desfrutam de audiência um rato que interage com o apresentador de mesmo nome, e um jacaré que dá receitas culinárias. Além deles, bonecas feitas sob medida e semelhantes às “progenitoras”, circulam com adultos em lugares públicos, desfrutando de zelo e relações de maternidade antes confinadas ao imaginário de meninas impúberes.
Paradoxalmente, essa sociedade infantilizada é a mesma que, cada vez mais, convive com a brutalização das relações sociais. Nesse aspecto, dois fatos merecem destaque: recentemente, um grupo de condôminos paulistano sorteou as vagas próximas ao elevador do prédio, indiferente aos apelos de deficientes físicos e idosos, alegando que não seria tolerada nenhuma espécie de “privilégio”(!). Na Europa, um grupo pagou para ficar confinado em uma antiga prisão, vivendo um dia e uma noite como presidiários em espaços exíguos, alimentação por portinholas minúsculas e banho de sol controlado. De acordo com tais “voluntários”, a intenção era saber como vive um preso comum. Em ambos os casos, a sensibilidade para com o outro está condicionada à capacidade do indivíduo em reconhecer como legítimos os sentimentos e as situações que não vivencia pessoalmente.
Assim, se o respeito ao outro só é possível pela experiência pessoal, tem-se uma solidariedade restrita à nuclearidade das relações entre o “eu” e os meus “iguais”. Nessa perspectiva, a solidariedade mecânica de que falava Durkheim parece comprometida. Ao invés do partilhamento de uma moral coletiva que coesiona socialmente - e cujo sentimento de pertencimento social não está limitado às relações diretas - temos uma solidariedade que se restringe às fronteiras das relações pessoais, nos limites das quais o indivíduo consegue realizar a generosidade de pensar e sentir com o outro. Essa “generosidade”, entretanto, não ultrapassa os limites do egocentrismo social das relações onde está imerso,
Esse descolamento do restante da sociedade - que revelam sociabilidades desorganizadas em feudos - obviamente destrói os laços da moral coletiva durkheniana, necessários à coesão e à ordem social. E se esse processo de destruição de um conteúdo moral socialmente partilhado é consolidado, destroçadas são as formas de garantir um padrão de referência de onde se extraia um mínimo denominador comum, capaz de orientar a vida social.
Daí porque, embora a funcionalidade positivista de Durkheim esteja atrelada ao propósito de manutenção da ordem social capitalista, sua contribuição para os estudos sociológicos é relevante para a compreensão da força da ideologia dominante – que ele denomina de moral ou consciência coletiva – e que garante a unidade imaginária de que fala Marx. Assim, sem entrar na discussão sobre a capacidade e os limites da teoria de Durkheim, quero refletir aqui sobre o que representa a dita “anomia” como parte da própria consciência coletiva.
Se a anomia, conforme define Durkheim, representa a desintegração das regras e da moral coletiva (que coesiona socialmente), a questão de fundo que se coloca é, justamente, quando a falta de regras e de um conteúdo moral socialmente partilhado passa a ser o que unifica a vida social. Em outras palavras: a ausência de regras coletivamente partilhadas é a regra. E, portanto, as regras deixam de ser gerais para terem validade nos feudos circunscritos de sociabilidade.
Como a violência é parte da realidade coletiva, ela é um dos poucos elementos unificadores – com sinal negativo - da vida social. Desta forma, a exposição midiática da violência produz sentimentos de pertencimento social. Mas o auto-reconhecimento como parte de um todo se esvai na prevalência das alternativas individuais ou de grupo, sem alcançar a vida política organizada.
O caso da adolescente Elóa, assassinada pelo ex-namorado, é bastante sintomático desse sentimento de pertencimento social viabilizado pela violência: durante dias, a esmagadora maioria das pessoas assistiu solidária e apreensiva ao seqüestro. Porém, tão logo houve o desfecho do caso, milhares de pessoas foram ao velório para tirar fotos e filmar o caixão, em absoluto desrespeito ao ritual religioso de preservar o morto e respeitar a dor dos familiares.
Tão veloz quanto as oscilações das Bolsas de Valores, a atenção do público é canalizada para outro assunto. Especialmente se o próximo caso for de violência e tenha um período de entretenimento capaz de manter os índices de audiência nas alturas. Nesse processo, a banalização da vida se cristaliza e os vínculos de sociabilidade se destroçam. Como não há um processo de luto coletivo – necessário à exorcização da dor e à revitalização da valorização da vida – passa-se de vítima em vítima como se fôssemos apreciadores em uma exposição, que se detêm, às vezes mais ou menos tempo, frente a uma tela... Reconfortados pelo fato de que não fomos nós ou nossos “iguais” aqueles vitimados pela violência.
Desta forma, como faces da mesma moeda, a infantilização adulta relaciona-se com práticas pedófilas e a erotização da infância. E, de outro lado, brutaliza as demais relações conviviais. Esse embrutecimento pautado pela ausência de solidariedade mecânica - capaz de reforçar laços morais que balizem a vida coletiva - acaba por naturalizar a anomia, transformando-a no mínimo denominador comum socialmente partilhado.
E assim vamos levando a vida... um dia são os índices assustadores de professores agredidos por estudantes e seus familiares; jovens que destroem o patrimônio público... noutro são jovens de classe média que queimam índios e mendigos, ou que estupram jovens e expõem seus “feitos” na internet... no seguinte, são idosos que sofrem violência por parte de filhos e parentes; e crianças e mulheres tratadas como propriedade privada de homens violentos...
Essas, porém, são as formas mais evidentes da violência: a física. Aquela que tem materialidade. A outra, a que atua sobre o psicológico e o imaginário, que destrói as estruturas individuais e familiares para a sociabilidade, que é feita pela inexistência de políticas socialmente includentes, pela mídia sensacionalista, pelo desemprego, pelo indecente desvio de dinheiro público para especuladores financeiros, pela imoral e indecente atuação da maioria dos políticos, pelos baixos salários, pela naturalização do egoísmo e pela falta de responsabilidade social etc. essa é absorvida como parte “natural” das relações sociais. Por isso, é imensamente mais perversa .
Assim, enquanto o papagaio Loro José dá palestras; o rato barbariza com Ratinho; o jacaré ensina a fazer comida; os telejornais utilizam seus preciosos minutos para ensinar receitas culinárias ou dar dicas de beleza; e as moçoilas continuam a desfilar com seus bebês de plástico... os menores abandonados abundam, milhões de pessoas passam fome, trabalhadores perdem o emprego, a política institucional é cada vez mais excludente e anti-democrática e a violência – em todos os espaços – se multiplica e se inova.
Mas, como a maioria não se reconhece parte do coletivo e, muito menos, responsável por ele, as revistas e programas de celebridades continuam a consumir recursos e boa parte das energias populares, estimulando a invasão da privacidade de ídolos fabricados, como forma à dar sentido a vidas tão desgraçadas. Conseqüentemente, o dia-a-dia vai sendo preenchido de costas para a ação política coletiva – capaz de mudar alguma coisa – e de frente para a vida daqueles que, objeto do mais fútil desejo, têm sua vida esquadrinhada. Isso até o próximo caso de violência a ser acompanhado, capítulo por capítulo, até o seu trágico the end.
Desta forma, o paradoxo da nossa vida social contemporânea é que ela se equilibra – ou desequilibra – entre a infantilização e a brutalização. Imatura e incivilizada, condena a todos ao fascismo globalizado. Porém, com o glamour de Hollywood, a fome da África e o “jeitinho” brasileiro.

Alair Silveira é professorada do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFMT

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