« Voltar

Fonte: http://paginadoenock.com.br/

Atitudes de nossos estudantes, revelam o caos da Educação

27/11/2008 - 12:24:00 | Comentários ( 0 )

O futuro e as novas gerações
Por ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Durante a última semana, um dos veículos da mídia nacional expôs outra matéria tratando da violência escolar. Como já ocorrera em Cuiabá há alguns meses, dessa vez, em Belém do Pará, estudantes de escolas diferentes (rivais!) se digladiaram na rua. O confronto havia sido marcado pela internet. Resultado: uma adolescente foi assassinada.

Pergunto: mais uma cena de violência? Sim, mas com peculiaridades. Aqui se trata de jovens que são caracterizados como "estudantes". Aliás, há alguns dias, eu falava com amigos, mostrando que se há uma palavra na língua portuguesa que, hoje, constitui pouquíssimo significado é justamente a palavra "estudante". A maioria de nossos jovens vai ao colégio apenas com um caderno (geralmente de 10 matérias) e uma caneta nas mãos. Nada mais. Nenhum livro. Talvez isso bastasse para que as autoridades enxergassem que na educação quase nada parece estar no seu devido lugar.

E não está mesmo. O país bagunçou a educação. Falar de sua baixa qualidade já é lugar-comum, posto que nunca a educação esteve tão aquém do razoável. As aberrações são infindas. Uma das piores foi a do garoto de onze anos aprovado no vestibular da Unip (Universidade Paulista), unidade de Goiás. O guri cursa a quinta série do fundamental. Nem seus pais reconhecem no filho um prodígio. Conforme a mãe, ele é apenas "garoto que gosta muito de ler". Assim, como poderia ser aprovado a um curso de Direito?

Isso prova que o país permitiu a banalização até do ensino superior. Nas empresas particulares de ensino, principalmente, não há o mínimo de rigor, nem para o ingresso dos "estudantes". O esvaziamento de significado desse nível de ensino é assustador; como é assustador o esvaziamento - agora em sentido lato - da própria existência contemporânea. Crianças, adolescentes e jovens, com certeza, são as maiores vítimas. Num artigo publicado aqui mesmo - "Juventude: de transviada à vitimada" - já tentei estabelecer uma discussão sobre isso. Um dos argumentos que apresentei foi o processo de retirada do ideológico de signos políticos, educacionais e culturais que deveriam solidificar uma sociedade.

Na dinâmica cultural, nunca se produziu tanto lixo às novas gerações. Pior: com base no discurso do "politicamente correto", muitos dos intelectuais medíocres da pós-modernidade dão aval a isso tudo, dizendo tratar-se de diversidade, liberdade de expressão e até democracia.

À época, no artigo referido, exemplifiquei a produção do lixo cultural por meio das "músicas" que se podem ouvir em automóveis especialmente adaptados para girar pelas cidades espalhando sucessivas pancadas no ar. Além do alto volume, a chulice das letras é total, o que deveria ofender a inteligência daquilo que ainda se pode chamar de humana. Das chulices, talvez a dança do "créu" seja a mais emblemática das "criações artísticas" até o momento. Pergunto: o que é possível esperar de gerações que são embaladas por esse tipo de produto cultural?

Assim, toda vez que vejo notícia de violência envolvendo estudante contra estudante, sinto-me impulsionado a trazer esses questionamentos a público. Sinto-me no dever de cidadão de tentar chamar a atenção de nossas autoridades no sentido de que alguma coisa precisa ser feita o mais rápido possível. Algumas gerações (resguardadas as exceções, identifico pelo menos três) já podem ser consideradas gerações perdidas socialmente por conta da péssima educação formal e do lixo cultural de que se apropriam. Quantas mais serão desperdiçadas por não se lhes oferecer educação e produtos culturais de qualidade?

Ontem, num dos telejornais da manhã, diante da ausência de médicos bem-formados (fruto da proliferação de péssimos cursos de Medicina), um comentarista repassava a preocupação de um médico de meia idade: "quem cuidará de minha saúde quando eu for idoso?"

Essa preocupação específica da área da saúde - também absolutamente caótica - deve ser estendida ainda mais à educação e à cultura. Se o caos já está instaurado em ambas, o que legar para as futuras gerações? Não é de estarrecer?

 

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é Dr. em Jornalismo/USP. Prof. da UFMT

rbventur26@yahoo.com.br
 

« Voltar