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Fonte: http://paginadoenock.com.br/

GRANDE, COMO ERA GRANDE - Morre em São Paulo o poeta ROBERTO PIVA. Seu pecado sempre foi ser poeta e intelectual na total insubordinação

04/07/2010 - 14:29:00 | Comentários ( 0 )

Morre o poeta Roberto Piva, aos 72 anos
Sua obra foi editada em três volumes pela editora Globo; publicou 'Paranoia', sua obra-prima, aos 23 anos


Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo


SÃO PAULO -  O poeta Roberto Piva morreu no sábado, aos 72 anos, em São Paulo, com falência múltipla dos órgãos decorrente de uma insuficiência renal. Ele estava hospitalizado desde maio no Incor (Instituto do Coração), no Hospital das Clínicas, com um câncer na próstata, que posteriormente se espalhou pelos ossos. Antes do diagnóstico do câncer, ele já havia ficado internado duas vezes neste ano, uma delas para passar por uma cirurgia no coração.

Nascido em São Paulo, Piva foi um dos mais destacados poetas do País nas últimas décadas. Sua obra-prima, Paranoia, foi publicada quando ele tinha 23 anos, em 1963, sob edição de Massao Ohno, o pioneiro editor de poetas independentes, que morreu há menos de um mês. De sua geração, destacaram-se também poetas como Hilda Hilst e Claudio Willer. Sua obra hoje está disponível em três volumes de uma compilação da editora Globo - o mais recente, Estranhos Sinais de Saturno, saiu em 2008. O corpo foi velado ontem, no Cemitério do Araçá, e seria cremado na manhã deste domingo, no crematório da Vila Alpina.

E para que ser poeta em tempos de penúria?, perguntava o poeta Roberto Piva em um de seus mais recentes poemas. Mais do que seus contemporâneos, ele sabia o que era viver à margem: de opiniões firmes, visionário, feroz contra as unanimidades de laboratório, Piva também bradou orgulhosamente seu homossexualismo por becos e praças de São Paulo. Diagnosticado com o Mal de Parkinson, viveu modestamente nos últimos anos, sendo evitado por quem o bajulava e pelos círculos literários bem postos do País.

Aos 72 anos, tornou-se fundamental para a poesia brasileira em 1963, quando, ainda um garoto, lançou Paranoia, poemas-instântaneos da metrópole cinza, contraditória e brutal que se formava. O livro foi reeditado em novembro pelo Instituto Moreira Salles (R$ 60, tem 208 páginas) - o IMS chegou a anunciar um lançamento na Casa das Rosas, no dia 7 de novembro, mas Piva já estava muito debilitado para participar da noite de autógrafos, que foi cancelada.

Paranoia tem um efeito meio alucinógeno, é um livro que inocula imagens na mente do leitor a todo instante. Nenhum verso é vulgar, nenhuma imagem é estranha - e ainda assim, todas são surpreendentes, como "terraços ornados com samambaias e suicídios" e "as galerias do meu crânio não odeiam mais a batucada dos ossos".

É um grande livro de poesia sobre uma complexa metrópole, um retrato de São Paulo como poucos ousaram fazer. Também é, simultaneamente, um desafio para que se dê à palavra um status de essencialidade e um poder de contágio: nenhum verso é vulgar, nenhuma imagem é estranha - e ainda assim, todas são surpreendentes.



Em 2008, a Editora Globo lançou o terceiro volume de sua obra completa - além de sua produção a partir dos anos 80, o volume continha, de quebra, um livro de inéditos. Tratava-se de Estranhos Sinais de Saturno. No emaranhado de epígrafes desse novo livro, se destacava uma de Georges Bataille: "A verdadeira poesia se encontra fora das leis."

Cultivava uma notável independência de escolas, patotas e panelinhas. Em entrevista publicada em 1983, vociferava contra a cultura oficial: “A maioria dos que você chama de 'mandarins bem-pensantes da cultura' não passa de um bando de galinhas assustadas. Eles tentam fazer pressão sobre minhas assumidas irregularidades de comportamento como forma de me enquadrar. Se eu me enquadrasse, eu ganharia página inteira na imprensa conformista. Eles gostariam que eu me calasse sobre tudo, mas eu não me calo sobre nada. Para essa canalha, o meu pecado é ser poeta e intelectual na total insubordinação".  (colaborou Raquel Cozer)

FONTE O ESTADO DE S PAULO

 

 

 

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para conhecer melhor o poeta

Roberto Piva: Literatura e (homo) sexualidade como transgressão, mística e resistência
por Luiz Fernando Calaça 


Numa madrugada de 2004, zapeando os canais de televisão, vi o anúncio de um documentário sobre o poeta paulista Roberto Piva, que seria exibido logo depois na TV Cultura. Desde os 11 anos eu passei a me interessar por literatura, comecei a escrever poemas em 2001 e sempre que possível eu assistia programas na TV sobre a vida de escritores ou sobre arte. Fiquei esperando e assisti ao documentário Assombrações Urbanas com Roberto Piva.

Tratava-se de um documentário feito sobre a visão da cidade de São Paulo a luz da poesia deste poeta. Nunca antes eu havia ouvido falar dele. Ao assisti, me apaixonei, tornando-me leitor e admirador de sua poesia, chegando a “catar” edições esgotadas de sua obra em sebos e dando pulos de alegria quando vi ser lançada os três volumes de sua Obra Reunida, pela Editora Globo: O Estrangeira na Legião (2006), Malas na mão & asas pretas (2007) e o livro recém saído do prelo, Estranhos sinais de saturno (2008).

O que havia em sua escrita que me causou tanto interesse?

Primeiro: sua escrita, de explícita influência surrealista, tem forte cunho autobiográfico. Escrita delirante, em fluxo de consciência, pulsante e alucinada, de forma semelhante à que eu tateava em meus momentos de criação poética adolescente.

Segundo: Sua temática homoerótica, sexual e transgressiva, sem falsos moralismos e contestatária, anárquica e jovem.

Terceiro: Seu sincretismo religioso e estético e erudição. Sua escrita que ressignifica, através de uma apropriação pessoal, referências mil da literatura clássica e marginal, da filosofia existencialista, do cinema de vanguarda, das artes.

No documentário Assombrações Urbanas há vários depoimentos de intelectuais que viveram o contesto de produção da obra de Piva e reconhecem sua importância enquanto representante e ícone na literatura brasileira da temática e da expressão da sexualidade e do homoerotismo como forma de transgressão – ou transvaloração – de valores burgueses e da livre expressão da homossexualidade enquanto vivência e construção identitária.

Sua escrita, no entanto, não é militante, mas crítica. Segundo o próprio poeta, essa idéia de “se assumir” gay, lésbica é uma reprodução de um modelo bancário de sociedade, que tenta dividir as coisas, rotular para controlar. Dizer como cada um deve ser e se comportar. Sua afirmação da homossexualidade se dá pela primazia do sexo como manifestação e afirmação da potência de vida, exercício da liberdade sobre formas repressoras de controle social.

Em seu livro Coxas (1979) fica explícita essa apologia à vivencia plena da sexualidade como forma de desconstrução e afirmação de valores de liberdade, vitalidade e expressão plena da condição humana. O sexo, na maioria das vezes realizado entre jovens garotos, se dá de forma coletiva, em orgias, que na realidade traz consigo valores de “comunidade”. Jovens pederastas que vivenciam o sexo, os delírios e alucinações em grupo, em comunhão quase religiosa.

Ao longo de sua obra, Piva aborda a sexualidade de forma tal que se aproxima da experiência mística e religiosa. A religião, nesse sentido, remete a um sentido radical, de retorno às raízes ancestrais indígenas, aos rituais xamânicos e de conversão espiritual, possessão das formas da natureza, animalista. Assim, os jovens incorporam nomes de animais selvagens e seu sexo é expressão das forças e instintos da natureza. Tanto na obra Coxas (1979) quando em Ciclones (1997), quando seus poemas ganham formas mais solenes de reverência ao místico e as experiências xamânicas.

Essa relação com o mundo místico e religioso, agora, me faz lembrar da compreensão trazida por Peter Fry, em seu livro O que é homossexualidade, quando se refere à figura do – “homem-mulher” ou “mulher-homem” que ocupa um lugar de transgressão, por se situar no “não lugar” entre os papéis sociais e sexuais do masculino e feminino, geralmente associado a figuras de poder social ligado ao sagrado, como líderes espirituais, tanto no candomblé, como em outras práticas religiosas. Esse lugar, de certa forma é muitas vezes associado ao homossexual, quando se reproduz a crença e o esteriótipo de que são geralmente pessoas mais cultas, com sensibilidade artística e representantes da intelectualidade acadêmica ou religiosos – o que não deixa, em parte, de ter um quê de verdade.

Piva, não só em sua poesia, como em sua vida, incorpora esse lugar, tanto por ser um intelectual e erudito, conhecedor de arte, literatura e filosofia, quando por ser xamã, praticando rituais de cura. Mas, principalmente sua notoriedade enquanto representante dessa voz transgressiva e crítica é que se faz marcante, tanto em sua poesia, ao longo de 40 anos de produção marginal, quando na vivência e afirmação da homossexualidade, como forma de resistência e oposição ao moralismo hipócrito e opressão e repressão à livre vivência da sexualidade e dos direitos humanos.

Creio que hoje, mais de 40 anos depois da início de sua produção literária, Piva continua atual, num contexto social e político que ainda está muito aquém dos ideais de direito a igualdade e liberdade social do exercício da sexualidade, quando ainda se luta pelo direito à legalização da união civil entre gays e lésbicas, adoção e da presença da homofobia em nosso cotidiano. Como diria o João Silvério Trevisan, o Roberto Piva já era referência da livre vivencia da homossexualidade, num tempo em que ainda não se tinha nada em que o jovem pudesse se espelhar para construir sua identidade.

Abaixo, segue alguns poemas do poeta Roberto Piva:

LIBELO

Não mais trarei justificações
Aos olhos do mundo.
Serei incluído
” Pormenor Esboçado ”
Na grande bruma.
Não serei batizado,
Não serei crismado,
Não estarei doutorado,
Não serei domesticado
Pelos rebanhos
Da terra.
Morrerei inocente
Sem nunca ter
Descoberto
O que há de bem e mal
De falso ou certo
No que vi.

(in: Antologia dos Novíssimos, 1961)

Eu vi os anjos de Sodoma escalando
um monte até o céu
E suas asas destruídas pelo fogo
abanavam o ar da tarde
Eu vi os anjos de Sodoma semeando
prodígios para a criação não
perder o ritmo de harpas
Eu vi os anjos de Sodoma lambendo
as feridas dos que morreram sem
alarde, dos suplicantes, dos suicidas
e dos jovens mortos
Eu vi os anjos de Sodoma crescendo
com o fogo e de suas bocas saltavam
medusas cegas
Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e
violentos aniquilando os mercadores,
roubando o sono das virgens,
criando palavras turbulentas
Eu vi os anjos de Sodoma inventando a
loucura e o arrependimento de Deus

(in: Paranóia, 1963)

XVI

abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.
poesia em cascatas floridas com aranhas
azuladas nas samambaias.
todo trabalhador é escravo. toda autoridade
é cômica. fazer da anarquia um
método & modo de visa. estradas.
bocas perfumadas. cervejas tomadas
nos acampamentos. Sonhar Alto.

(in: 20 Poemas com Brócoli, 1981)

ALMA FECAL

Alma fecal contra a ditadura da ciência
Rua dos longos punhais
Garoto fascista belo como a grande noite esquimó
Clube do fogo do inferno: Alquimistas Xamãs
Beatniks
Je vois l’arbre à la langue rouge (Michaux)
Templo
Procissão do falo sagrado
Deuses contemplam nas trevas o sexo
do anjo do Tobogã
Felizes & famélicos garotos seminus dançam
como bibelôs ferozes
Pedras com suas bocas de seda
Partindo para uma existência invisível
Tudo que chamam de história é meu plano
de fuga da civilização de vocês
Represa de Mariporã. 95
(in Ciclines, 1997)

Ritual dos 4 Ventos & dos 4 Gaviões
para Marco Antônio de Ossain


“Eu trago comigo os guardiões
dos Circuitos celestes.”
- Livro dos Mortos do Antigo Egito -

Ali onde o gavião do Norte resplandesce
sua sombra
Ali onde a aventura conserva os cascos
do vudú da aurora
Ali onde o arco-íris da linguagem está
carregado de vinho subterrâneo
Ali onde os orixás dançam na velocidade
dos puros vegetais
Revoada das pedras do rio
Olhos no circuito da Ursa Maior
na investida louca
Olhos de metabolismo floral
Almofadas de floresta
Focinho silencioso da sussuarana com
passos de sabotagem
Carne rica de Exú nas couraças da noite
Gavião-preto do oeste na tempestade sagrada
Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas
Bate o tambor
no ritmo dos sonhos espantosos
no ritmo dos naufrágios
no ritmo dos adolescentes
à porta dos hospícios
no ritmo do rebanho de atabaques
Bate o tambor
no ritmo das oferendas sepulcrais
no ritmo da levitação alquímica
no ritmo da paranóia de Júpiter
Caciques orgiásticos do tambor
Com meu Skate-gavião
Tambor na virada do século ganimedes
Iemanjá com seus cabelos de espuma.


Luiz Fernando Calaça é Psicólogo, psicoterapeuta, professor substituto do curso de Psicologia da UFBa e aluno especial de Filosofia Contemporânea (UFBa). Membro do UNISEX.

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