Dormindo com o inimigo
Em "Vincere", Marco Bellocchio, um dos mais importantes cineastas italianos, retoma a tradição do melodrama para contar a história da amante secreta de Benito Mussolini
Divulgação
Benito Mussolini (Filippo Timi) e Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno) em "Vincere"
ANA PAULA SOUSA
FOLHA DE SÃO PAULO
Aos 70 anos de idade, Marco Bellocchio, nome de proa da longa tradição cinematográfica italiana, voltou à maestria. "Vincere", selecionado para a competição de Cannes, em 2009, é seu maior sucesso em anos.
"As pessoas costumam dizer que o cinema italiano vive uma má fase, que não temos mais os grandes filmes. Mas quantos filmes italianos chegam ao Brasil? O que vocês conhecem? Nesse sentido, a boa recepção a "Vincere" no exterior me deixa realmente feliz", diz o cineasta à Folha, por telefone.
"Vincere" retoma a raiz melodramática do cinema italiano para dar conta de um momento histórico.
O filme registra a chegada de Benito Mussolini (Filippo Timi) ao poder. Mas quem nos conduzirá pela história não é o Duce, e sim Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), amante do jovem Benito, um socialista revolucionário.
Dasler, que teve um filho de Mussolini, foi violentamente repudiada pelo ex-amante. Considerada uma ameaça aos ideais do fascismo, foi internada numa clínica psiquiátrica. Viveu quase como um fantasma.
"Me impressionou a tragédia dessa mulher apaixonada", diz. "E quis mostrar também que alguns socialistas escolheram a guerra."
Chama a atenção de Bellocchio, cineasta de veia política, o fato de, no exterior, muita gente enxergar em seu filme sobre Mussolini referências aos anos Berlusconi. "No nível da consciência, nunca pensei nessa ligação. Mas é curioso: essa leitura é recorrente fora da Itália."
Bellocchio diz que revolta é destrutiva
Aos 70 anos, cineasta busca provocar o público por meio de histórias humanas; "A tragédia nos provoca", diz
Ao lado de Fellini e Bertolucci, diretor integra idade de ouro do cinema italiano e fez mais de 30 longas
DE SÃO PAULO
Em 1965, aos 26 anos, Marco Bellocchio, um ex-aluno da congregação salesiana, impressionou o mundo com "De Punhos Cerrados".
Seu ataque aos hábitos burgueses, tão feroz quanto belo, levou a crítica Pauline Kael, da revista "New Yorker", a sentenciar: não seria mais possível compor um justo painel do cinema italiano sem colocar, ao lado de Fellini (1920-1993) e Bertolucci, o nome de Bellocchio.
Uma década e meia mais tarde, Kael diria, a propósito de "Salto no Escuro" (1980), que rendeu a Palma de Ouro de Cannes aos atores Michel Piccoli e Anouk Aimée, que Bellocchio era um cineasta em pleno controle de seu exercício.
"Ele dirige sem pressa. Parece medir as batidas do nosso coração", escreveu a lendária crítica.
Como em "Salto no Escuro", o cineasta enquadra, em "Vincere", personagens fora do controle. "Essa mulher [Ida Dasler] aceitou a própria destruição. Mas não foi por loucura. Ela escolheu a rebelião absoluta, o que prova uma coragem extrema."
Bellocchio foi, ele próprio, um rebelde. Gritou contra a igreja, contra a política e contra a sociedade.
"Mas o tempo passou e eu fui vendo que a revolta e a crítica extremas podem ser destrutivas", diz.
É um pouco esse o recado de uma das mais belas cenas de "Vincere", quando um psiquiatra tenta convencer Dasler a fingir um pouco, a desistir de sua guerra particular.
"O médico diz uma coisa verdadeira: o fascismo não vai durar para sempre."
O cineasta acredita ser possível, por meio da história, aproximar o público de suas emoções mais puras "A tragédia nos provoca, nos modifica", diz, citando o seu "Bom Dia, Noite" (2003), sobre o sequestro e assassinato de Aldo Moro, em 1978.
A política, para o cineasta, talvez seja, sobretudo, teatro. Mas essa pergunta ele não teve tempo de responder.
"Desculpe, mas preciso desligar. Estou no meio da produção de "Rigoletto" para a TV. Sempre quis fazer essa ópera", disse, antes do "tchau". (ANA PAULA SOUSA
CRÍTICA DRAMA
Voltando a Mussolini, diretor analisa a insânia da direita da Itália sob Berlusconi
INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA
A principal cena do filme "Vincere" pode dar a impressão, ao primeiro olhar, de um lugar-comum: alguém coloca um bilhete dentro de uma garrafa e a joga na água, como um náufrago. Essa primeira impressão será enganosa.
Quem atira a garrafa não é um náufrago, mas Ida Dalser, ex-amante do italiano Benito Mussolini, no momento do seu gesto recolhida a um hospício.
É do drama dessa mulher que o filme se ocupa em primeiro lugar: Ida Dalser tem um filho do Duce, reconhecido por ele e inclusive levando seu próprio nome.
Mas Ida deve ser esquecida, primeiro porque Mussolini é casado, segundo porque esse caso amoroso conflita com suas ambições políticas.
Quando ele chega ao poder, Ida é afastada do homem que ama perdidamente. Perdidamente não é uma palavra lançada ao acaso: todo seu esforço é de entrar em contato com o ex-amante.
E quando uma mulher internada num hospício na Itália, nos anos 1920, diz que é mulher do Duce, não torna sua vida mais fácil. Mas estamos no século 21.
E quem manda na Itália é o império Berlusconi de comunicação. Silvio Berlusconi é o primeiro-ministro. Ou seja: lá deu certo uma operação que aqui nunca colou, de unir poder midiático e poder político.
Com Berlusconi, a direita e um sentimento nacionalista tipo século 19 (tipo Mussolini) voltaram ao controle.
LOUCURA PENINSULAR
E Marco Bellocchio, que já havia contemplado a insânia da esquerda italiana ("Bom Dia, Noite", 2003) desta vez observa a outra face da loucura peninsular: a da direita.
E os atos da direita, de Mussolini no caso, passam pela ambição pessoal desmedida: o líder socialista torna-se nacionalista pouco antes da Primeira Guerra e logo fará carreira no chauvinismo.
Como parte obrigatória de sua ditadura, Ida deve ser reduzia ao silêncio: incomunicável. É como se sentem as pessoas (as que não aderiram a Berlusconi, em todo caso) na Itália de hoje. Resta-lhes a garrafa a jogar no oceano: o cinema. Um veículo hoje frágil em termos de comunicação.
Como nem sempre foi assim, Mussolini documentou exemplarmente o fascismo ("O cinema é a arma mais forte", palavras do próprio). Essa documentação ajuda Bellocchio a transitar entre o passado e o presente, entre 1920 e o ano 2000 com desenvoltura (o uso de documentos permite traçar analogias entre duas épocas de certa forma tão diferentes).
Talvez Mussolini fosse só um louco tomado pela grandeza que pensasse que era Mussolini (como sugerem as imagens finais); Berlusconi não tem nada com isso.
Por fim, este filme tão operístico é feito de oposições de luz e sombra. Quantas vezes veremos a silhueta escura dos atores (e da atriz), sob uma luz que a ofusca? É dessa luz maligna que fala o filme. Luz que, para existir, destina à escuridão e ao silêncio o que aparece à sua frente.
VINCERE
DIREÇÃO Marco Bellocchio
PRODUÇÃO Itália/França, 2009
COM Giovanna Mezzogiorno, Filippo Timi e Fausto Russo Alesi
ONDE Cinesesc
CLASSIFICAÇÃO 16 anos
AVALIAÇÃO ótimo