Eduardo Mahon: - Um candidato com medo de se posicionar é pior que o próprio aborto
Vamos abortar o fanatismo
POR KLEBER LIMA
Diz-se que na guerra e no amor vale tudo, menos perder. Regra que, ao que tudo indica, está sendo levada ao pé da letra pelo candidato do PSDB ao Senado, Antero Paes de Barros. No desespero de ver-se encolhendo nas intenções de voto, o tucano desencadeou uma estratégia de ataque ao petista Carlos Abicalil, que vem tomando-lhe o espaço nas pesquisas, acusando-o de maneira ardilosa de aprovar o aborto.
A perfídia do tucano encontra guarida em setores conservadores, reacionários e fanatizados, especialmente os ligados às igrejas evangélicas. Uma breve revisão no histórico de Abicalil, contudo, torna a acusação uma mera querela eleitoral, levando-se em conta a sua formação religiosa.
Simultaneamente aos ataques tucanos, circula na internet um vídeo em que um pastor de Curitiba pede licença aos seus fiéis para pedir-lhes que não votem nos candidatos do PT. Alega, entre outros, que os petistas seriam iníquos, e, depois explica que iniqüidade - no seu dicionário de reacionarismo - significa “acostumar-se ao pecado”.
O pastor mistura temas de alto interesse público e atuais, como aborto, união civil entre homossexuais, pedofilia, infanticídio indígena e lei da mordaça para induzir que os petistas são a favor de tudo isso, e assim justificar o anti-voto da igreja a eles.
Os temas não guardam relação causal entre si, tampouco podem ser atribuídos, em seu conjunto, a qualquer político brasileiro. Em especial a pedofilia e o infanticídio. Agora, união civil entre pessoas do mesmo sexo e o aborto são temas mais controversos, que de fato dividem opiniões.
A união civil entre homossexuais é algo que o próprio Antero deveria abraçar, se levasse em conta que o maior movimento da chamada sociedade civil atualmente é a Parada Gay. O que efetivamente merece combate, e viril, é a homofobia. Além do que, qualquer argumento religioso contra a união civil está contaminado pelos inúmeros e flagrantes crimes de pedofilia e pederastia existentes na igreja - de todos os credos. No mínimo, seria uma heresia oficial.
Aborto é outro tema inadiável nesses tempos modernos, bem como eutanásia. Ser a favor ou contra passa sim por questões de princípio, entre os quais os religiosos, mas passa também por questões legais, de saúde e humanitárias. A rigor, o que não se pode é tratar do assunto apenas pelo prisma religioso, porque isso leva ao fanatismo, e o fanatismo só produziu ódio e desgraça para a humanidade. Tratar o tema apenas pelo viés eleitoral, logo, é jogar baixo, de forma desonesta, pensando apenas em granjear votos para si ou tirá-los de seus adversários, sem se comprometer com a solução efetiva do dilema. E utilizar-se de artimanhas, eufemismos e engodos torna a ação, acima de tudo, um espasmo fascista.
O Antero sabe o peso e o preço que se paga quando se é vítima deste tipo de maquinação destrutiva. Ele próprio possui em seu espectro questionamentos levianos da sua sexualidade, e o tema aborto sempre assustou a atual cúpula do seu partido. Fruto de um vício que felizmente estamos superando, o preconceito contra políticos em geral resultou no senso comum de que toda pessoa que entra na política torna-se ladrão, veado ou corno. Não podemos alimentar esses estereótipos, sob pena de sermos nós mesmos as suas principais vítimas, cedo ou tarde.
Apostar no combate ao seu adversário por meio desses expedientes, além de apequenar o Antero e manchar sua biografia, inclusive de ex-comunista e ex-petista, pode representar um tiro no pé pela resistência e os anticorpos criados pelos eleitores contra as tais denúncias eleitoreiras. E ficará a pergunta no dia seguinte às eleições: terá valido mesmo a pena descer tão baixo, aos esgotos da condição humana, para tentar vencer uma eleição? Se vale a mentira e o engodo, não valeria também a compra de votos, a opressão e a eliminação física de adversários? O que diferencia, afinal, um democrata de um fascista?
* KLEBER LIMA é jornalista e consultor de marketing em Mato Grosso. E-mail: kleberlima@terra.com.br.
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OUTRA OPINIÃO
Aborto da sinceridade
Por Eduardo Mahon
Particularmente, sou contra o aborto. Acredito que no caso em que pudesse opinar e fosse atinente à minha família minha contrariedade seria muito clara. Isso não significa que o meu ponto de vista represente a dos demais cidadãos. As convicções íntimas de quem quer que seja não podem servir de baliza para pautar a sociedade. E, se é assim comigo, será assim com todos os candidatos. Não será a ética de um ou de outro que ditará comportamentos. Noutras palavras – o julgamento moral é a pior forma de legislar e criar políticas públicas.
Considero relevantes os argumentos favoráveis à interrupção da gestação ainda que, por uma questão íntima, deixe de aplicá-los em casos que me digam respeito. A disposição do próprio corpo pela mulher, o risco à vida em clínicas sanguinárias, a hipocrisia reinante ao abordar planejamento familiar, tudo deve ser levado em consideração para sublinhar perspectivas diversas. A delicada questão ultrapassa simplesmente a margem científica para incursionar nos limites éticos e religiosos da sociedade. Não há equação que componha um resultado exato.
Todavia, o que está ocorrendo em Mato Grosso é bastante diferente. Há dois candidatos ao Senado Federal que parecem ter posições diversas com relação ao aborto – Antero Paes de Barros e Carlos Abicalil. Nenhuma opinião deve ser desprezada, tanto a contrária ao aborto quanto a favorável. O insuportável é o medo de tomar posição pública. Aí está outro aborto da natureza – a omissão política.
Um candidato sem clareza ou com medo de se posicionar é pior que o próprio aborto, pois sonega do povo, não apenas uma opinião pessoal, como uma plataforma política quando for eleito. No caso específico, Antero Paes de Barros é bem claro. Não se esconde atrás de orientação partidária, de sofismas, de regimentos legislativos. Ao contrário – impedir que a atuação parlamentar seja noticiada em época eleitoral é decididamente um ponto a menos para Carlos Abicalil. O que é público não deve ser escondido. Ou abortado...
EDUARDO MAHON É ADVOGADO EM CUIABÁ.